18.4.12

SOMOS COMO AS VESPAS?

     Da compulsão pela leitura, muito menos como fonte de cultura do que por uma necessidade de transitar pelo mundo do pensamento, deparamos com uma obra recente do sociólogo (e, para nós, filósofo) polonês ZYGMUNT BAUMAN, obra intitulada “A ética é possível num mundo de consumidores?” (Rio de Janeiro: Zahar, 2011). Das divagações do pensador sobre a atualidade da condição humana no Planeta, inicia com a pergunta “Ameaças ou oportunidades?”. Discorrendo sobre os problemas atuais de nossa sociedade hipercomplexa e globalizada, começa sua abordagem sobre uma pesquisa realizada na República do Panamá, em que a Sociedade Zoológica de Londres analisou o comportamento das vespas, inseto que comumente habita aquele país.
      A questão sob análise da referida entidade de pesquisa foi o comportamento das ditas vespas. Partiu-se do pressuposto de que o instinto de socialização seria um fenômeno com necessária limitação territorial, um lócus determinado por concentração de indivíduos que compartilham uma mesma descendência, uma “cultura” própria, “hábitos” relativamente comuns, um conjunto de “afinidades” de integrantes de um mesmo grupo – ninho, no caso das vespas –, aquilo que os pensadores alemães já denominaram de Gemeinschat (comunidade), para diferenciar de Gesellschaft (sociedade), abordagem também enfrentada pelo mesmo autor na obra “Globalização: as consequências humanas” (Rio de Janeiro: Zahar, 1999). O fato é que os pesquisadores londrinos constataram que as vespas não ficam a vida toda como pertencentes a um mesmo ninho. Elas mudam. Isso significa dizer que os ninhos das vespas são habitados simultaneamente por indivíduos deles originários e também por indivíduos que ali aportaram e passaram a fazer parte daquele grupo. E isso funciona perfeitamente entre as vespas, pois ditas “comunidades” (de vespas), embora conservem suas características específicas (distribuição de tarefas, especificidades ambientais, “hábitos” decorrentes das condições do ecossistema em que estão inseridas), são também permeáveis, isto é, são capazes de conviver com o trânsito e a permanência de vespas, sejam as que abandonam seu ninho originário e vão para outro, sejam as que de outros ninhos procedem, passando a viver em paridade e sem entraves com as vespas imigrantes. Em uma palavra, entre as vespas, as fronteiras que delimitam e caracterizam os diferentes grupos continuam presentes, mas isso não significa que tais grupos não sejam permeáveis, aptos a agregar novos habitantes, em igualdade de condições com as vespas já estabelecidas ou originárias.
      E os seres humanos? Nossas Gemeinschaften são permeáveis? Será que ainda podemos falar em “comunidades” nesse mundo de globalização desterritorializante? A dita globalização acabou com as fronteiras que delimitam (ou delimitavam) os agrupamentos humanos? Ou será que assistimos a um fenômeno simultâneo à globalização, em que ocorre um reforço da territorialização como reação (inconsciente?) àquele fenômeno global? Estamos dissolvendo a nossa cultura local num caldeirão gigantesco imposto de cima para baixo? Ou será que somos capazes – e o fazemos, mesmo sem perceber – de rearticular as forças locais, fixando nossos limites, em que celebramos nossas próprias visões de mundo e nossa cultura?
      Adiantamos um palpite. Nunca deixamos de ser permeáveis, assim como os grupos de vespas do Panamá. Mas também nunca deixamos, a rigor, de considerar nosso “território cultural” e de valores. Seguindo a natureza de todas as espécies que habitam o Planeta, ainda que diferenciados por nossa racionalidade, acabamos por funcionar mais ou menos do mesmo jeito que as demais, em grande parte de nossos movimentos grupais. Somos – no dizer do pensador polonês – seres “praxeomórficos”, fundamental e essencialmente adaptáveis. Criamos preconceitos, mas também bradamos contra hipocrisias; vivemos no “hipermundo”, mas não abandonamos o mundo concreto. Aqui, embora concordemos em parte com THOMAS HOBBES (“Leviatã”), somos levados a considerar que também é inato ao ser humano a convivência com a diversidade. Nisso, de ver como possível ocorrer uma rearticulação dos valores humanistas na atualidade, mesmo nesta paradoxa e complexa sociedade contemporânea, haveremos de concordar com MILTON SANTOS (“Por uma outra globalização - Do pensamento único à consciência universal”. São Paulo: Record, 2000). O Homem não nasce bom ou mau: somos tanto capazes de egoísmo tanto quanto somos capazes de solidariedade. Mudar é da nossa natureza. Conviver com “mutantes”, também. Diferenciamos das vespas, que agem por instinto, apenas porque nós, humanos, agimos por decisão refletida, seja boa ou má, mais confusa ou menos, por utilitarismo ou por ideais, mas nunca de forma a nos retirar a liberdade e a responsabilidade pelo nosso futuro.

4.4.12

EXISTE SENSO DE JUSTIÇA?

      Justiça é uma das quatro virtudes cardinais da Igreja Católica, tal como publicado no Compêndio do Catecismo da Igreja, em 2005, no motu proprio de 28 de junho daquele ano, fruto do trabalho da comissão então presidida pelo Cardeal Joseph Ratzinger, que, já como Papa Bento XVI, promulgou o normativo eclesiástico. Aristóteles, na Grécia Antiga, já se preocupava com a questão, afirmando que justiça comporta os conteúdos essenciais da legalidade e da igualdade. Revigorada a discussão sobre o tema na Idade Média, principalmente com Santo Tomás de Aquino, que buscava a conciliação entre a teologia cristã e a filosofia, o tema justiça é abordado incessantemente na literatura, seja como discussão central, seja como premissa ou conceito fundante, tangenciado nas diversas doutrinas filosóficas e das ciências políticas. No aspecto relacional, será sempre o resultado da redução do abuso no exercício de um direito alguém para que outro direito, o de outrem, possa ser exercitado. Nesse sentido, pode-se afirmar que justiça é a máxima ética na alteridade.
      Mas será possível afirmar que exista um senso comum de justiça em nosso tempo? Numa época de intensas e constantes modificações no funcionamento da sociedade, em que os valores fundantes estão sempre à disposição para novas leituras, redimensionamentos e relativizações, parece árdua a empreitada de encontrar um balizamento fixador do que é justo ou do que é injusto. A questão se torna ainda mais intimidadora, quando se constata que vivemos um tempo em que a centralidade das instituições sociais que tradicionalmente chancelam os valores tidos como essenciais é abdicada em favor de uma sociedade que funciona em rede, em que centros e periferias podem comungar dos mesmo espaços, sejam geográficos ou virtuais, ensejando o surgimento dos mais inusitados conflitos de valores, a denunciar uma sensação de anomia ou até mesmo de caos. A igualdade prometida no ideário iluminista das revoluções liberais, enunciada numa espécie de “cheque pré-datado” daquele compromisso histórico, tal como positivado nas diversas cartas de direitos do mundo ocidental a partir do Século XVIII, está agora sendo levado a desconto no “banco dos direitos de todos e de cada um”, esbarrando muitas vezes em “ausências de disponibilidade de caixa”, com a produção de verdadeiras legiões humanas de “passivo a descoberto”.
      Duas dicotomias parecem essenciais ao debate. Uma é a de que liberdade implica necessariamente responsabilidade em igual medida. Outra é a de que a liberdade está em tensão permanente com outra necessidade humana fundamental, a segurança. Somos livres, mas necessariamente responsáveis por nossos atos. E, para o exercício de tal liberdade, é necessário um mínimo de segurança, para o qual necessariamente concorrerá alguma restrição à liberdade. Na esteira dos valores democráticos, é preciso observar que a vontade da maioria não é sempre absoluta, pois as minorias, como tais e porque tais, não perdem a condição humana de titulares dos direitos essenciais à vida individual e social. Eis o quadro de um momento histórico em que a perquirição do justo haverá de conclamar os mais diversos valores, as suas mais diversas nuances, as mais complexas e diferenciadas razões e argumentos.
      Numa época de tantos e tão diferenciados “agenciamentos de subjetividade”, tal como referido por Felix Guattari e Suely Rolnik, em “Micropolítica – Cartografias do desejo”, em que a comunicação de massa, na maioria das vezes, parte de uma configuração da informação e do conhecimento como uma mercadoria de consumo ou como expressão dos interesses políticos de setores ou classes, encontrar um senso comum de justiça parece tarefa de difícil realização. Um indicativo, não o único, mas efetivamente necessário, é a utilização de uma racionalidade de conteúdo humanista, em que a inclusão de todos – e a história já nos ensinou bastante sobre os perniciosos resultados da exclusão – seja pauta necessária, assim como o respeito às conquistas humanistas consolidadas, oriundas que são das disputas sociais que as antecederam. Justiça é, pois, também, em última análise, fruto de uma disputa, da qual ninguém se pode furtar, pleito de cada um e de cada dia, neste mundo tão heterogêneo e complexo.