2.8.13

DA CLASSE MÉDIA PARA BAIXO E DAQUI DE DENTRO PARA FORA

     É chegado o tempo em que, mesmo os setores mais conservadores da sociedade, começam a admitir as conclusões há muito construídas e alardeadas com paixão, civismo, espírito crítico e democrático, muitas resultantes de lutas sociais e políticas, seja fora ou dentro do Estado, com incontáveis mártires, teóricos e práticos, todos alvos de ofensivas ferrenhas, muitas vezes pudicas e aparentemente “calminhas” - como determinam os modos tidos como “normais”.  
    Muitas pessoas que, por amor à pátria, à causa do povo oprimido, ao próximo, entregaram-se à luta social e política contra valores e ditames importados desde o tempo da colonização, foram excluídas, silenciadas, sumiram até, com gente ainda dizendo que reabrir os arquivos da mais recente ditadura (de direito e de fato) havida em nossa terra é não mais do que um “exercício de ódio” e “um atentado à paz social”. Que paz social? As pessoas estão nas ruas, e em grande parte movidas por motivos específicos, setoriais, classistas, que não correspondem a algum “esquema político organizado para desestabilizar as instituições”. Saem às ruas protestando, porque é direito de todos sair às ruas para protestar. Ou cumprimos a Constituição, que muitos não conseguem engolir, ou deixamos que rasguem o que sobrou das gloriosas lutas sociais e políticas do início e meados dos anos de 1980.
     Está cada vez mais evidente que a nova fase do capitalismo que se inicia vai proletarizar cada vez mais as burguesias nacionais dos países periféricos que seguem a cartilha do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da Organização Mundial do Comércio. O capital está ganhando autonomia, está funcionando sozinho, produzindo fragmentação de valores tradicionais, desmotivação para o exercício da tão alardeada “livre iniciativa”. Livre para quem?  
    O sistema que se instala no mundo é o da hegemonia das empresas transnacionais, que não deixam de receber os incentivos dos governos de seus países de origem, todos do chamado “Primeiro Mundo”. Aliás, nunca se viu tanto caos em setores como a saúde, além do crescente endividamento e empobrecimento da população, na pátria de nossos irmãos norteamericanos. Está cada vez mais difícil executar a velha tática de entreter o povo com as gloriosas “intervenções” em países do Terceiro Mundo, sob os mais esdrúxulos pretextos.   
   As constituições europeias foram rasgadas. O regimento social, econômico e político da Europa são os cânones jurídicos da “Comunidade Europeia”. Não é de estranhar, pois, na origem, o tal “contrato social” tão festejado desde o século XVIII não incluiu os povos africanos, da Oceania e principalmente da América Latina, incluída a rotulada “América Central”. Um pacto desses, mais dia, menos dia, tinha que soçobrar mesmo.
     E o pior é que justamente, e mais uma vez, é a dita “Classe Média” que acaba sendo a grande massa de manobra do sistema. Foi assim em 1889, quando os militares foram apoiados pela burguesia comercial e industrial incipiente e pelo latifúndio, para instituírem, em 1891, “os Estados Unidos do Brasil”. 
    Houve momentos bons, não esqueçamos. Em 1961, quando da Legalidade, foi a falta de apoio da classe média aos setores golpitas, além da qualidade das organizações sociais e político-partidárias da época, que garantiram a posse do presidente trabalhista. 
   Em 1964 já foi diferente. Com promessas de “fundos e mundos”, na esteira da sonhada “liberdade para o progresso” a largas passadas, com endividamento, corrupção, violência, tortura, ruptura total da ordem democrática, assassinatos oficializados, lavagem cerebral nas instituições de ensino e tantas outras mazelas, a classe média apoiou, em sua maioria, o escandaloso golpe de Estado de 31 de março de 1964. 
    E não nos iludamos. Foi depois da crise do petróleo de 1974, quando as coisas começaram a piorar para os "intermediários da pirâmide", momento que foi bem aproveitado pelas lutas legítimas em prol do restabelecimento da democracia, que se acirraram e se reorganizaram os movimentos democráticos contra a ditadura, o que culminou com uma Constituição avançada em 1988, embora prolixa, mas muito além do imaginável para um país que ainda se pautava pelas “ordenações iluminadas” do Consenso de Washington.
    Mas saibamos todos que, mesmo pertencendo o futuro a Deus, é sabido que Ele delegou sua feitura aos humanos já faz um tempinho bom. É ora de parar de repetir a cartilha da moral burguesa do século XIX e se preparar para os grandes desafios para a democracia nos anos que se seguirão. 
   As pessoas, que antes eram indiferentes, por conta das diferenças de classe, estão cada vez mais próximas. Há um consenso a se formar, no sentido de que estamos todos no mesmo barco, patrões e empregados, ricos, remediados e pobres, e que a solução para os nossos problemas não é uma só e nem vem de fora. Somente terá chance se partir daqui de dentro, conectando movimentos e organizações comprometidos com a realidade, inclusive entre países que ostentam a mesma condição de “subdesenvolvidos”.

24.5.12

ASSOCIAÇÃO DOS DEFICIENTES VISUAIS

    No dia 6 de agosto de 2010, no Bairro Pedreirinha, em Três de Maio, foi fundada a Associação dos Deficientes Visuais e Amigos Nova Vida de Três de Maio – ASDEVI, com a participação de membros da comunidade, representantes de entidades, autoridades públicas, servidores do Município e estudantes da Faculdade de Psicologia da Sociedade Educacional Três de Maio – SETREM. Os movimentos da Entidade foram inclusive objeto de estudos e trabalhos acadêmicos. Trata-se de um marco importante para a história de Nossa Cidade, pois, além de revelar a existência de um movimento comunitário e social organizado de relevante interesse público, sinaliza a pertinência de políticas públicas de valorização, saúde, assistência e inclusão social para uma parcela da população historicamente alvo de processos de exclusão e marginalização.
   A importância do movimento comunitário como expressão fundamental do saudável exercício da cidadania democrática e republicana já foi destacada neste espaço. A Entidade, além de congregar pessoas que são portadoras de deficiência visual, admite a participação de qualquer pessoa da sociedade de Três de Maio e região, revelando-se como ação afirmativa de um movimento importante de reconhecimento da realidade das pessoas com necessidades especiais. Reza o Estatuto da Entidade: “Artigo 3º. A ASDEVI, além dos princípios e normas legais e constitucionais aplicáveis, rege-se pelos princípios comunitário, da vida e dignidade humana, da solidariedade, da equidade, da adesão voluntária, da participação efetiva, da gestão democrática, da autonomia e independência, da filantropia, da educação e informação, da tolerância e da inclusão, além dos valores republicanos e democráticos do Brasil. Artigo 4º. São os seguintes os fins da ASDEVI: a) promover gratuitamente a educação, a saúde e a assistência social, além da defesa de todos os direitos individuais e sociais, das pessoas portadoras de deficiência visual; b) promover ações e prestar serviços, gratuitamente, ressalvadas contribuições de custeio, devidamente discutidas e aprovadas em assembleia, relacionados com a atenção às necessidades das pessoas portadoras de deficiência visual; c) elaborar, promover e apoiar estratégias e ações comprometidas com o atendimento às necessidades de desenvolvimento e aprimoramento pessoal, cultural, educacional, profissional, psicológico, moral, econômico e social das pessoas portadoras de deficiência visual, visando a sua aplicação prática em larga escala; d) contribuir para o estabelecimento e efetivação de políticas públicas e de programas governamentais nos níveis federal, estadual e municipal, visando a garantir a universalidade e a qualidade da atenção às pessoas portadoras de deficiência visual, na perspectiva de concretizar os direitos e as oportunidades de acesso aos direitos necessários ao seu desenvolvimento humano e social; e) promover o estabelecimento de intercâmbios, a produção de pesquisas e publicações, bem como a realização de eventos, reuniões, círculos de estudos, conferências, debates, cursos, palestras, seminários e outras atividades afins, visando a divulgação de resultados observados nos seus projetos, a troca de informações e a construção e difusão de conhecimentos sobre as questões relativas às pessoas portadoras de deficiência visual; (…) h) funcionar como grupo de convivência para as pessoas portadoras de deficiência visual, combatendo todas as formas de exclusão familiar, cultural, econômica, política e social em relação a tais pessoas.”
     Com quase dois anos de pleno funcionamento, a Entidade tem propiciado espaço de convivência e de reafirmação das singularidades das pessoas portadoras de cegueira. Muito mais do que um reconhecimento de limitações sociais inerentes à condição de pessoas não videntes, os movimentos desse novo território criado em Três de Maio têm demonstrado que as pessoas cegas são capazes de exercer plenamente sua cidadania, em paridade com os demais membros da sociedade, ocupando espaços e usufruindo de oportunidades, indicando que os portadores de deficiência visual, longe de pretenderem o tradicional e benevolente reconhecimento social de sua limitação física, querem ocupar efetivamente os espaços sociais de convivência, afirmando, por suas iniciativas no sentido de ultrapassarem suas limitações, uma identidade que é não mais do que diferente de uma maioria não portadora de cegueira. Afirmando a diferença cega como inerente também à dignidade humana, é notável o crescimento dessas pessoas, a partir da criação e funcionamento do Grupo de Convivência, valendo a pena conferir de perto o ânimo, o otimismo e a determinação de seus integrantes, verdadeiros exemplos de superação que ocorrem bem aqui em Nossa Cidade de Três de Maio.

10.5.12

EMOÇÃO E AUTENTICIDADE

     Das incursões pela pela internet, sugeriu-me uma amiga assistir a um vídeo no You Tube, em que um jovem cantor britânico, PAUL MALAKI, de nove anos de idade, apresentou-se na televisão inglesa, em um programa de talentos. O vídeo está disponível em http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=txPQC8NB_-M. Chama a atenção a forma como se deu a apresentação do menino, que interpretava uma música da badalada Beyonce, perante seleto grupo de jurados adultos, diante de uma plateia, sob o olhar tenso de uma dedicada mãe nos bastidores do palco. A originalidade da performance residiu fundamentalmente na espontaneidade do jovem artista, que, já nas primeiras estrofes da canção, não conteve suas emoções, desabando em copioso choro, solidarizado de pronto pela plateia, pelos apresentadores e pela mãe. Mais do que isso, até a redação deste artigo, o vídeo já contava com quase um milhão de acessos, indicando algo mais de relevante no episódio do que a simples demonstração de um fato que é comum no mundo artístico, mas que, no caso, pela autenticidade da expressão do jovem cantor, acabou por iconizar-se na rede, suscitando toda sorte de abordagens e conclusões.
   As pessoas querem se emocionar. Não se trata de emoção racionalmente construída numa obra de arte feita com esse propósito. Qualquer obra de arte pode emocionar. Mas o peculiar do caso é que a reação do público indica que se quer é vivenciar o autêntico, o humano, o verdadeiro. É preciso ver, ouvir, apreciar a expressão do que é sentido, como se ecoasse uma necessidade de manifestação do conteúdo humano de cada um. O sentimento puro e transparente de um menino emocionado com a canção que interpretava bateu certeiro no coração do público. É a humanidade da performance que chama a atenção. A originalidade veio da imagem inocente do jovem artista de nove anos de idade, coroado por uma belíssima voz, que, longe de claudicar por deficiência nas técnicas de canto, vacilou em emocionado pranto incontido, revelando completa absorção pela obra que interpretava, chegando ao extremo de não poder prosseguir com a apresentação, por conta de incontrolada erupção de sentimento manifestada no choro diante da plateia. A emoção está em alta. Por mais paradoxal que possa parecer, num mundo de matizes tão utilitaristas e pragmáticos, em que a racionalidade é celebrada em todas as esferas da comunicação e até mesmo da arte, as pessoas buscam autenticidade e sentimento verdadeiro. O autêntico e o original também estão em alta. Não há racionalidade discursiva que supere o poder da empatia diante da emoção. A humanidade na expressão é o mais impactante atributo que franqueia o trânsito pelos caminhos do sentimento.
    Não se trata de supervalorizar as qualidades da retórica ou de exigir que toda manifestação cultural seja emocionalmente escaldante. As pessoas não querem ser apenas sujeitos difusos de uma individualidade relativa. As pessoas precisam singularizar-se. É preciso que as palavras e os discursos sejam inclusivos em seu sentido humano. Isso para ficar apenas no universo das expressões escritas ou faladas. O povo quer se ver nas frases proferidas ou escritas. As grandes causas da modernidade vão deixando aos poucos o lugar de “protagonistas” dos movimentos da cultura e da sociedade, passando por um processo de reelaboração no imaginário coletivo, que não prescinde de uma estrutural vinculação com as aspirações de um novo sujeito, que reclama a dignidade de seus sentimentos, que quer afirmar suas aspirações, que busca a valorização de suas qualidades como tais e próprias para a realização de sua felicidade. Quaisquer agenciamentos de subjetividade precisam tocar na alma de seus destinatários. Nesse milênio há pouco iniciado, molda-se esse novo sujeito que quer ser protagonista dos fatos do mundo, admitido inteira e ativamente, aceito por sua individualidade, incluído por suas qualidades humanas fundamentais.
    O Ex-Presidente LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA talvez seja o exemplo mais próximo e verdadeiro acerca da propriedade humana que deve imantar e conduzir qualquer argumentação política. Não é exatamente a simplicidade do texto que o aproxima de seus destinatários; é a inclusão deles no seu prognóstico argumentativo. É essa espécie de cumplicidade, apta a ser experimentada por quem, muito mais do que escutar sobre a pertinência de tal ou qual assertiva, quer sentir a autenticidade do enunciado, por sua congruência e vinculação com os sentimentos mais humanos e reais de qualquer pessoa.

3.5.12

DEMOCRACIA E VALORES FUNDAMENTAIS

      O título parece excluir a palavra e o sentido “democracia” daquele universo que podemos chamar de “valores fundamentais”. Mas não é essa a intenção aqui delineada. A democracia em si é também um valor fundamental. Diz respeito à possibilidade de afirmação e de reconhecimento de cada um e de todos os que dela participam, conduzindo invariavelmente à noção de liberdade de pensamento, de expressão e de ação. Conduz também a uma ideia de pluralidade possível, em que os diferentes disputam sobre a aceitação e a preponderância de valores em debate. Mas a democracia, com ênfase no seu papel instrumental na vida social, acaba sempre com uma conclusão irrefutável. Uma conclusão que decorrerá sempre de uma disputa, em que haverá vencedores e vencidos, ainda que, em ambos os casos, parcialmente. Quiçá aqui presente a razão para o título: existe o valor fundamental democracia, mas existem também outros valores fundamentais.
     Imaginemos um jovem em uma escola qualquer, praticante, por si e por sua família, de uma religião diversa da que professam a maioria dos seus colegas de educandário. Não é difícil, e por conta de outras idiossincrasias correlatas, haver deliberações de que participe o “aluno de religião diferente”, em que seja ele, no entanto, vencido. Haverá de mudar de religião? Haverá de mudar de escola? Estará autorizada toda sorte bullyng em relação ao minoritário? Imaginemos um universo de eleitores, participantes ativos de uma campanha política, identificados e conhecidos como tais, notadamente por suas manifestações em favor de um candidato ou de uma candidata. Por conta de um resultado desfavorável a esse grupo, com a vitória do candidato ou da candidata de agremiação partidária adversa no pleito, teremos, afinal, uma maioria vencedora e uma minoria vencida. A minoria então perdeu seus direitos políticos? Perdeu a voz? Está condenada a ver reduzida sua cidadania, porque não atingiu a meta eleitoral perseguida com a disputa? Afinal de contas, é suficiente o valor democracia, fio condutor das disputas grupais, sociais e políticas, para garantir-se que os direitos das minorias, muitas vezes vencidas nos pleitos sociais, sejam respeitados pela maioria vencedora?
     É intuitivo que existe algo mais do que a democracia, inclusive para que ela própria, como tal, possa desempenhar seu papel essencial de instrumentalização do convívio social saudável. A democracia é um valor supremo, sem dúvida. Mas existem outros valores que impregnam necessariamente a vida social, jogando o papel de garantia de respeito a valores de que são todos titulares, não apenas a maioria, tornando possível a convivência dos desiguais – maioria e minoria – mesmo após a democrática disputa travada. O bem maior, não se discute em lugar algum, é a vida humana. Independentemente de existir uma proteção legal mais efetiva, ou menos, ainda que diferentemente distribuído nos sistemas jurídico-políticos dos diversos países, destaca-se como o bem mais caro à Humanidade. E se a vida é de especial relevo, não menos relevante é a vida com dignidade, a dignidade da vida, a vida digna: a dignidade da pessoa humana é um valor fundamental em qualquer sociedade. E se a vida social importa em alteridade, intui-se como valor de especial relevo também a liberdade, pressuposto do livre arbítrio de cada homem e mulher. E bastam essas três vias estruturantes da vida humana no Mundo para que delas se desprendam os outros tantos valores fundamentais que compõem esse acervo humano necessário. Direito de falar, direito de calar, direito de cantar, direito de trabalhar, direito de casar, de divorciar, de nascer, de curar-se, de proteger-se, direito de discordar, de opinar, de chorar, de sorrir, direito de viver em paz, direito a ter honra, de defender-se, direito à luz do Sol de cada dia, direito ao sono e à tranquilidade, direito ao amor, ao carinho, direito de ter uma família, de ter filhos, direito de respirar ar puro, de beber água límpida, de alimentar-se, direito, enfim, de desfrutar de tudo que há no Mundo, com oportunidades efetivas, com inclusão, com responsabilidade e – vale repetir – direito à democracia.
      Então é possível afirmar que a democracia, instrumental que é da vida em sociedade, somente será efetiva, se todos os demais fundamentais direitos efetivos também forem. E aqui já se observa que a realidade humana não comporta estanques ou unilaterais valores, sendo certo que estão todos imbricados, ligados, atrelados, somente se justificando a existência de uns, na medida de mesmo existir paritário dos outros. É a complexa teia dos valores humanos, que somente pode ser entendida em seu movimento constante e permanente, como uma rede viva e necessariamente congruente, para que se realize o bem viver em toda a sua plenitude. São os valores, então, a essência mais humana das essências humanas, fios condutores que são de todo e qualquer sopro ou promessa de vida da Humanidade na Terra.
ricardosouza2065@gmail.com

18.4.12

SOMOS COMO AS VESPAS?

     Da compulsão pela leitura, muito menos como fonte de cultura do que por uma necessidade de transitar pelo mundo do pensamento, deparamos com uma obra recente do sociólogo (e, para nós, filósofo) polonês ZYGMUNT BAUMAN, obra intitulada “A ética é possível num mundo de consumidores?” (Rio de Janeiro: Zahar, 2011). Das divagações do pensador sobre a atualidade da condição humana no Planeta, inicia com a pergunta “Ameaças ou oportunidades?”. Discorrendo sobre os problemas atuais de nossa sociedade hipercomplexa e globalizada, começa sua abordagem sobre uma pesquisa realizada na República do Panamá, em que a Sociedade Zoológica de Londres analisou o comportamento das vespas, inseto que comumente habita aquele país.
      A questão sob análise da referida entidade de pesquisa foi o comportamento das ditas vespas. Partiu-se do pressuposto de que o instinto de socialização seria um fenômeno com necessária limitação territorial, um lócus determinado por concentração de indivíduos que compartilham uma mesma descendência, uma “cultura” própria, “hábitos” relativamente comuns, um conjunto de “afinidades” de integrantes de um mesmo grupo – ninho, no caso das vespas –, aquilo que os pensadores alemães já denominaram de Gemeinschat (comunidade), para diferenciar de Gesellschaft (sociedade), abordagem também enfrentada pelo mesmo autor na obra “Globalização: as consequências humanas” (Rio de Janeiro: Zahar, 1999). O fato é que os pesquisadores londrinos constataram que as vespas não ficam a vida toda como pertencentes a um mesmo ninho. Elas mudam. Isso significa dizer que os ninhos das vespas são habitados simultaneamente por indivíduos deles originários e também por indivíduos que ali aportaram e passaram a fazer parte daquele grupo. E isso funciona perfeitamente entre as vespas, pois ditas “comunidades” (de vespas), embora conservem suas características específicas (distribuição de tarefas, especificidades ambientais, “hábitos” decorrentes das condições do ecossistema em que estão inseridas), são também permeáveis, isto é, são capazes de conviver com o trânsito e a permanência de vespas, sejam as que abandonam seu ninho originário e vão para outro, sejam as que de outros ninhos procedem, passando a viver em paridade e sem entraves com as vespas imigrantes. Em uma palavra, entre as vespas, as fronteiras que delimitam e caracterizam os diferentes grupos continuam presentes, mas isso não significa que tais grupos não sejam permeáveis, aptos a agregar novos habitantes, em igualdade de condições com as vespas já estabelecidas ou originárias.
      E os seres humanos? Nossas Gemeinschaften são permeáveis? Será que ainda podemos falar em “comunidades” nesse mundo de globalização desterritorializante? A dita globalização acabou com as fronteiras que delimitam (ou delimitavam) os agrupamentos humanos? Ou será que assistimos a um fenômeno simultâneo à globalização, em que ocorre um reforço da territorialização como reação (inconsciente?) àquele fenômeno global? Estamos dissolvendo a nossa cultura local num caldeirão gigantesco imposto de cima para baixo? Ou será que somos capazes – e o fazemos, mesmo sem perceber – de rearticular as forças locais, fixando nossos limites, em que celebramos nossas próprias visões de mundo e nossa cultura?
      Adiantamos um palpite. Nunca deixamos de ser permeáveis, assim como os grupos de vespas do Panamá. Mas também nunca deixamos, a rigor, de considerar nosso “território cultural” e de valores. Seguindo a natureza de todas as espécies que habitam o Planeta, ainda que diferenciados por nossa racionalidade, acabamos por funcionar mais ou menos do mesmo jeito que as demais, em grande parte de nossos movimentos grupais. Somos – no dizer do pensador polonês – seres “praxeomórficos”, fundamental e essencialmente adaptáveis. Criamos preconceitos, mas também bradamos contra hipocrisias; vivemos no “hipermundo”, mas não abandonamos o mundo concreto. Aqui, embora concordemos em parte com THOMAS HOBBES (“Leviatã”), somos levados a considerar que também é inato ao ser humano a convivência com a diversidade. Nisso, de ver como possível ocorrer uma rearticulação dos valores humanistas na atualidade, mesmo nesta paradoxa e complexa sociedade contemporânea, haveremos de concordar com MILTON SANTOS (“Por uma outra globalização - Do pensamento único à consciência universal”. São Paulo: Record, 2000). O Homem não nasce bom ou mau: somos tanto capazes de egoísmo tanto quanto somos capazes de solidariedade. Mudar é da nossa natureza. Conviver com “mutantes”, também. Diferenciamos das vespas, que agem por instinto, apenas porque nós, humanos, agimos por decisão refletida, seja boa ou má, mais confusa ou menos, por utilitarismo ou por ideais, mas nunca de forma a nos retirar a liberdade e a responsabilidade pelo nosso futuro.

4.4.12

EXISTE SENSO DE JUSTIÇA?

      Justiça é uma das quatro virtudes cardinais da Igreja Católica, tal como publicado no Compêndio do Catecismo da Igreja, em 2005, no motu proprio de 28 de junho daquele ano, fruto do trabalho da comissão então presidida pelo Cardeal Joseph Ratzinger, que, já como Papa Bento XVI, promulgou o normativo eclesiástico. Aristóteles, na Grécia Antiga, já se preocupava com a questão, afirmando que justiça comporta os conteúdos essenciais da legalidade e da igualdade. Revigorada a discussão sobre o tema na Idade Média, principalmente com Santo Tomás de Aquino, que buscava a conciliação entre a teologia cristã e a filosofia, o tema justiça é abordado incessantemente na literatura, seja como discussão central, seja como premissa ou conceito fundante, tangenciado nas diversas doutrinas filosóficas e das ciências políticas. No aspecto relacional, será sempre o resultado da redução do abuso no exercício de um direito alguém para que outro direito, o de outrem, possa ser exercitado. Nesse sentido, pode-se afirmar que justiça é a máxima ética na alteridade.
      Mas será possível afirmar que exista um senso comum de justiça em nosso tempo? Numa época de intensas e constantes modificações no funcionamento da sociedade, em que os valores fundantes estão sempre à disposição para novas leituras, redimensionamentos e relativizações, parece árdua a empreitada de encontrar um balizamento fixador do que é justo ou do que é injusto. A questão se torna ainda mais intimidadora, quando se constata que vivemos um tempo em que a centralidade das instituições sociais que tradicionalmente chancelam os valores tidos como essenciais é abdicada em favor de uma sociedade que funciona em rede, em que centros e periferias podem comungar dos mesmo espaços, sejam geográficos ou virtuais, ensejando o surgimento dos mais inusitados conflitos de valores, a denunciar uma sensação de anomia ou até mesmo de caos. A igualdade prometida no ideário iluminista das revoluções liberais, enunciada numa espécie de “cheque pré-datado” daquele compromisso histórico, tal como positivado nas diversas cartas de direitos do mundo ocidental a partir do Século XVIII, está agora sendo levado a desconto no “banco dos direitos de todos e de cada um”, esbarrando muitas vezes em “ausências de disponibilidade de caixa”, com a produção de verdadeiras legiões humanas de “passivo a descoberto”.
      Duas dicotomias parecem essenciais ao debate. Uma é a de que liberdade implica necessariamente responsabilidade em igual medida. Outra é a de que a liberdade está em tensão permanente com outra necessidade humana fundamental, a segurança. Somos livres, mas necessariamente responsáveis por nossos atos. E, para o exercício de tal liberdade, é necessário um mínimo de segurança, para o qual necessariamente concorrerá alguma restrição à liberdade. Na esteira dos valores democráticos, é preciso observar que a vontade da maioria não é sempre absoluta, pois as minorias, como tais e porque tais, não perdem a condição humana de titulares dos direitos essenciais à vida individual e social. Eis o quadro de um momento histórico em que a perquirição do justo haverá de conclamar os mais diversos valores, as suas mais diversas nuances, as mais complexas e diferenciadas razões e argumentos.
      Numa época de tantos e tão diferenciados “agenciamentos de subjetividade”, tal como referido por Felix Guattari e Suely Rolnik, em “Micropolítica – Cartografias do desejo”, em que a comunicação de massa, na maioria das vezes, parte de uma configuração da informação e do conhecimento como uma mercadoria de consumo ou como expressão dos interesses políticos de setores ou classes, encontrar um senso comum de justiça parece tarefa de difícil realização. Um indicativo, não o único, mas efetivamente necessário, é a utilização de uma racionalidade de conteúdo humanista, em que a inclusão de todos – e a história já nos ensinou bastante sobre os perniciosos resultados da exclusão – seja pauta necessária, assim como o respeito às conquistas humanistas consolidadas, oriundas que são das disputas sociais que as antecederam. Justiça é, pois, também, em última análise, fruto de uma disputa, da qual ninguém se pode furtar, pleito de cada um e de cada dia, neste mundo tão heterogêneo e complexo.

27.3.12

ENTERRAR DINHEIRO PÚBLICO

      A ideia de que para bem administrar a coisa pública é preciso realizar obras impactantes ao olhar dos administrados encontra sempre bom trânsito nos discursos do senso comum. É paradigma de trabalho inclusive para vários gestores públicos. Muitas vezes corresponde àquela noção antiquada de que “enterrar canos” não dá voto. A alusão normalmente diz respeito a obras de infra-estrutura urbana, notadamente aquelas que dizem respeito ao saneamento básico, compreendido como o abastecimento de água potável, o esgotamento sanitário, a limpeza urbana e o manejo de resíduos sólidos e a drenagem e o manejo das águas pluviais urbanas. Poucas ideias são tão carentes de qualquer fundamentação lógica: “enterrar dinheiro público” seria como administrar sem a perspectiva de bons frutos político-eleitorais para os gestores.
      De início, vale lembrar que se trata de uma política pública obrigatória para os gestores municipais, tal como sedimentada no texto constitucional: “a política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes” (artigo 182 da Constituição da República). A Lei 11.445, de 5 de janeiro de 2007, ressalta que o município, formulará a respectiva política pública de saneamento básico, devendo, para tanto elaborar os planos de saneamento básico, prestar diretamente ou autorizar a delegação dos serviços e definir o ente responsável pela sua regulação e fiscalização, bem como os procedimentos de sua atuação, adotar parâmetros para a garantia do atendimento essencial à saúde pública, inclusive quanto ao volume mínimo per capita de água para abastecimento público, observadas as normas nacionais relativas à potabilidade da água, fixar os direitos e os deveres dos usuários, estabelecer mecanismos de controle social, estabelecer sistema de informações sobre os serviços, articulado com o Sistema Nacional de Informações em Saneamento, e intervir e retomar a operação dos serviços delegados, por indicação da entidade reguladora, nos casos e condições previstos em lei e nos documentos contratuais (artigo 9º). Trata-se, pois, de um serviço público por excelência o saneamento básico, atribuindo-se aos municípios a responsabilidade primeira pela sua efetivação. Convém lembrar também, consoante o Decreto 7.217, de 21 de julho de 2010, que regulamentou a lei federal referida, que, a partir do exercício financeiro de 2014, a existência de plano de saneamento básico, elaborado pelo município, será condição para o acesso a recursos orçamentários da União ou a recursos de financiamentos geridos ou administrados por órgão ou entidade da administração pública federal, quando destinados a serviços de saneamento básico (artigo 26, § 2º).
      É tempo de varrer do senso comum a ideia retrógrada sobre “enterrar votos”. Precisamos inaugurar uma época de retomada de consciência sobre as reais aptidões da gestão pública, não apenas para dar cumprimento ao que mandam a Constituição e as leis, mas para que se compreenda que o desenvolvimento econômico e social passa fundamentalmente pelo atendimento das demandas essenciais de infra-estrutura. A livre iniciativa, bem como os investimentos públicos e privados no incremento das atividades econômicas, não prescindem de uma organização mínima, de uma base propícia a gerar desenvolvimento e riqueza. É preciso, sim, “enterrar canos”, para que os capitais possam transitar sobre eles de forma frutífera, promovendo efetivo e duradouro incremento das atividades econômicas. Investimento em infra-estrutura não apenas “dá votos”, mas é capaz de revigorar e realçar a gestão pública como peça fundamental na promoção do desenvolvimento econômico e social.

14.3.12

CONSULTA PÚBLICA

     O Comitê da Bacia Hidrográfica dos Rios Turvo-Santa Rosa-Santo Cristo está realizando processo de consultas públicas para o enquadramento das águas superficiais da bacia. As audiências públicas foram realizadas nesta semana em Santa Rosa, em Campina das Missões, em Três de Maio, em Santo Augusto e em Três Passos. Trata-se de questão de extrema relevância, na medida em que a comunidade é chamada a expressar sua manifestação de vontade sobre os usos futuros das águas superficiais. Nossa bacia conta com uma área de 10,8 mil Km2, distribuídos em 52 municípios, abrangendo uma população de 373 mil habitantes. Os principais cursos de água da bacia são os Rios Comandaí, Amandaú, Santo Cristo, Santa Rosa, Buricá e Turvo, os Arroios Pindaí e União e os Lajeados Jacaré, do Bugre, Fazenda, Pratos, Grande, Salto Grande e São Francisco.
      Cerca de 55% da área da bacia é utilizada com cultivos agrícolas, principalmente soja, milho e trigo. As áreas irrigadas atingem 7.300 hectares apenas, sendo que o potencial da bacia para irrigação é de 726.000 hectares. Cerca de 20% do rebanho de suínos do Estado estão concentrados na bacia. Aqui produz-se cerca de um terço do leite do Rio Grande do Sul. A vegetação nativa ainda recobre cerca de 23% da área da bacia. Os principais usos da água da bacia atualmente são de 9% para o abastecimento da população e da indústria, 52% para irrigação, 37% para dessedentação animal e 2% para aquicultura, além de percentuais ínfimos para a geração de energia, lazer e pesca. Destaca-se que 63% do abastecimento público nos municípios da bacia é feito por águas subterrâneas, não incluídas nessa etapa de consultas públicas sobre os usos das águas superficiais. O mês de dezembro é o mais crítico em relação à disponibilidade de água, por conta das causas climáticas e do uso intensivo para irrigação, notadamente nas partes altas da bacia, nos Rios Turvo e Buricá.
      Chama a atenção a situação da coleta e tratamento de esgotos. Nos municípios da bacia, alguns com predominância de população no meio urbano, como é o caso de Três de Maio, é quase inexistente o tratamento de esgotos. A maioria das populações utilizam fossas sépticas. Como era de se esperar, em decorrência da falta de saneamento e do uso desregrado dos cursos de água, existe sério comprometimento da qualidade da água, em função do lançamento de cargas orgânicas de origem urbana e de efluentes da suinocultura. No Rio Buricá, por exemplo, nas proximidades da estação de captação de água da CORSAN, concentram-se diversos empreendimentos de criação de animais e lavouras, com o lançamento de efluentes e a dispersão de agrotóxicos para as águas do rio.
      Mais do que um salutar e republicano processo de consulta popular para o enquadramento das águas da bacia, é momento para uma reflexão séria por parte de todos os usuários, sejam domésticos ou empreendedores, e também dos Poderes Públicos locais, acerca da qualidade que esperamos tenham as nossas águas superficiais. Os dados apresentados constam do sítio http://www.comiteturvo.com/ e são impactantes quanto aos prognósticos que se podem deles extrair quanto à realidade e ao futuro das nossas águas. É preciso uma tomada de consciência da população acerca do problema da água, na medida em que se trata de recurso esgotável, de essencial necessidade para o consumo humano e para as atividades econômicas desenvolvidas na região. Boa parte da bacia já conta com um resultado preocupante quanto ao comprometimento da disponibilidade de água, havendo partes em que o comprometimento é crítico e outras em que o comprometimento da disponibilidade de água é muito crítico. O problema da disponibilidade de água há muito deixou de ser restrito a pesquisadores e defensores da preservação ambiental. É um problema que está a poucos metros, nas torneiras de nossas casas, na dispersão de nosso esgoto doméstico. Um problema que diz respeito a todos indistintamente.

8.3.12

REPÚBLICA LAICA

     A edição de 7 de março de 2012, quarta-feira, do Jornal Zero Hora, na página 34, noticia sobre a manchete de capa “Decisão proíbe símbolos religiosos no Judiciário”. Longe de ser uma discussão recente, em algum espaço midiático sempre houve latente a questão, principalmente em relação aos crucifixos que tradicionalmente ornam, não apenas salas de audiências no Poder Judiciário, mas também outras salas de prédios das mais diversas repartições públicas dos Poderes e Instituições, seja a nível municipal, estadual ou federal.
     A crítica importante do Padre César Leandro Padilha (folha 34 da edição referida) acentua que “o direito da maioria não foi respeitado” pela decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Entende-se queira referir-se o sacerdote ao dado real de que a população brasileira, e não menos a população do nosso Estado, é constituída, em maioria ampla, por pessoas de orientação religiosa cristã, sejam seus adeptos praticantes efetivamente ou não. O Brasil é, de fato, um país majoritariamente cristão. Por outro lado, resultado de várias colonizações, com numerosas levas de imigrantes que aqui se estabeleceram ao longo do tempo, nosso povo contempla também diversas parcelas de optantes ou praticantes de outras vias religiosas, destacando-se o Judaísmo, o Islamismo e o Budismo. Existem comunidades numerosas dessas orientações religiosas espalhadas pelo Brasil. No Rio Grande do Sul não é diferente. Temos várias comunidades em que parcelas significativas das populações são formadas por pessoas praticantes do Judaísmo e do Islamismo. Mas o Brasil é predominantemente cristão, ainda que inúmeras sejam a vertentes religiosas que se incluem no gênero das religiões adeptas do Cristianismo.
     Mas é importante também – e aqui se ousa divergir do paroquiano referido e de outros que com ele comungam o entendimento crítico acerca da decisão em questão – que se visualize o fato, não apenas sob o aspecto quantitativo do argumento de que seja a maioria da população do país adepta do Cristianismo. Numa democracia republicana, a maioria elege os governantes. A maioria, representada nos Parlamentos da Nação – Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas, Assembleia Distrital, Câmara dos Deputados, Senado da República e Congresso Nacional –, estabelece as mais diversas normas de organização da sociedade, atingindo os mais variados setores da vida social, através das leis que são votadas, aprovadas e vigoram em todos os cantos da República. Nesses processos, para citar apenas esses exemplos, há sempre uma minoria vencida, os grupos daqueles que não concordam ou divergem do que legitimamente seja estatuído, ou dos que legitimamente eleitos sejam, conforme as decisões das maiorias.
     Por aí já se vislumbra o desfecho do pensar ponderado sobre o fato noticiado e debatido: não se faz uma democracia republicana sem respeito às minorias. As minorias também são protegidas pelas leis e pelos Governos. O direito das minorias de verem respeitadas pelo Estado suas opções religiosas é da essência do Estado Democrático Social de Direito. A começar pela Constituição, no seu artigo 5º, inciso VI, que dispõe que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. Nada mais coerente, portanto, do que fazer eco ao mandamento constitucional do artigo 19, pelo qual é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ou – especialmente – criar distinções entre brasileiros ou preferências entre brasileiros. A certeza de um Estado laico, inclusivo e democrático começa pela liberdade de entrar e permanecer qualquer pessoa, de qualquer religião que seja, em qualquer repartição pública do País, sem sofrer qualquer resquício de constrangimento ou intimidação por sua crença, em decorrência de ornamentos ou quaisquer signos de natureza religiosa diversa. Acertada, pois, a decisão do Conselho da Magistratura do Rio Grande do Sul.

26.1.12

MOVIMENTO COMUNITÁRIO

     A expressão “terceiro setor” geralmente é associada a entidades, muitas já consagradas na sociedade brasileira, que complementam ou suprem ausências ou deficiências de atuação do Estado no atendimento de necessidades de grupos de pessoas, específicos ou não, realizando atividades de importância incontestável. Basta citar, por exemplo, os clubes de serviço, como o Lyons Clube e o Rotary Clube, e as APAEs, para que se perceba o gigantismo das obras empreendidas por essas instituições em benefício da sociedade brasileira. Somam-se, dentre tantos, os movimentos hauridos no âmbito das instituições religiosas, congregando pessoas dispostas a atividades de solidariedade social, nas mais diversas funções, em atendimento às inúmeras faltas demandadas por pessoas e grupos. Nossas cidades – Três de Maio, Boa Vista do Buricá, São José do Inhacorá, Alegria, Nova Candelária e Independência – ostentam exemplos inúmeros, em que se revelam o desprendimento e a solidariedade das pessoas em favor de seu próximo. Para quem lida com a gestão pública, ciente das limitações existentes, muitas vezes, é a existência de tais movimentos e entidades a esperança de realizar na prática prestações que sem eles dificilmente poderiam ser atendidas.
      Mas existem também os movimentos e as entidades que atuam no atendimento de interesses difusos ou coletivos. Exemplos importantes, dentre os tantos existentes, são as associações de moradores. Entidades que podem ser concebidas num contexto maior de significação chamado movimento comunitário. Inserem-se nessa definição, porque representam – ou devem representar – interesses e aspirações fundadas na noção fundamental de cidadania, de liberdade de livre associação para fins e propósitos de ordem social. Instâncias de afirmação de identidades territoriais por excelência, são aptas a revelar um processo importantíssimo para a democracia republicana, convencionado a chamar-se movimento social organizado. Para quem vivenciou os tempos de Assembleia Constituinte no Brasil, idos de 1986, 1987 e 1988, não escapa da lembrança a atuação de entidades como a UAMPA, União de Associações de Moradores de Porto Alegre, e como a FRACAB, Federação Riograndense de Associações Comunitárias e Moradores de Bairro, esta última existente desde 1959, nos movimentos de afirmação e defesa da cidadania, por ocasião da Constituinte, ao lado de instituições consagradas e atuantes no mesmo propósito, como por exemplo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.
      Num ambiente republicano e democrático, o movimento comunitário é de suma importância para a construção permanente dos valores públicos essenciais ao funcionamento saudável da sociedade. Trata-se de congregar pessoas, partindo da referência de um território compartilhado no âmbito da cidade, propiciando o diálogo, o debate e a crítica sobre as questões que dizem respeito ao grupo. Quem não percebe a diferença entre uma demanda social trazida por um cidadão e a demanda trazida por uma entidade inserta no movimento comunitário? Quando uma associação de moradores delibera pela busca de uma prestação de parte dos Governos, o conteúdo da demanda ganha contornos mais amplos, ganha maior densidade, torna-se mais visível e compromete os demandados de forma muito mais intensa. É possível afirmar que a democracia representativa e participativa, tal como instaurada pela Constituição de 1988, não prescinde da atuação prática e efetiva do movimento comunitário. Longe, portanto, de ser uma instância assistencialista ou clientelista, as associações de moradores são das formas mais saudáveis de exercício da cidadania, traduzindo a base dos valores fundamentais a serem perseguidos pelos Governos e pela sociedade.

12.1.12

VOCAÇÃO

     Janeiro, época de vestibular, momentos tensos e difíceis para milhares de jovens. Muitos, recém-aprovados no ensino médio, já tiveram que fazer a opção por um curso de graduação, uma faculdade, uma profissão a seguir. É uma escolha difícil, especialmente para quem está no prelúdio da vida, na imensa maioria dos casos, sem experiência alguma em qualquer das possibilidades acadêmicas e profissionais que se vislumbram. Valem informações e conselhos dos pais, amigos, professores, profissionais conhecidos. É possível pesquisar a respeito das profissões na internet. Enfim, o jovem precisará contar também com boa dose de intuição para decidir qual curso de graduação pretende realizar.
      Grosso modo, é possível observar os cursos de graduação, e consequentemente as profissões resultantes, em três grandes grupos: o das “ciências exatas”, com esteio predominante na matemática e na física, englobando cursos como as engenharias; o das “ciências biológicas”, que abarcam as profissões ligadas à saúde, ao estudo da vida; e o das “ciências humanas”, aí incluídos cursos como comunicação social, letras e ciências jurídicas e sociais. Diz-se grosso modo, porque, em verdade, no campo das ciências ou conhecimentos aplicados, que se traduzem nos diversos cursos de graduação, há sempre componentes de outros ramos que são parte da formação acadêmica, como é o caso da medicina, que abrange conhecimentos de farmacologia; da psicologia, que abrange conhecimentos da medicina e da sociologia; da comunicação social e da arquitetura, que abrangem conhecimentos de história e geografia; do direito, que abrange conhecimentos de antropologia e ciência política. Acrescente-se a isso o fato de que, no mundo atual, e cada vez mais doravante, tendem as especialidades a se multiplicarem, mas, ao mesmo tempo, a tornarem-se multidisciplinares, isto é, com possibilidade de trânsito em outras esferas do conhecimento correlatas às necessidades impostas aos profissionais pelo mercado de trabalho. Vivemos uma época em que os conhecimentos e as habilidades que caracterizam as profissões não são estanques, necessitando-se cada vez mais de aptidão para se inserir no processo produtivo de forma conectada e pró-ativa com outros ramos do conhecimento ou com outras profissões.
      Todavia, é certo que são insuficientes esses referenciais genéricos, no escopo de solver a angústia própria de quem tem que tomar a primeira ou uma das primeiras grandes decisões na vida: escolher uma profissão. Por outro lado, é certo também – principalmente para os mais jovens, egressos recentes do ensino médio – que o eventual desacerto na opção de curso não é motivo para perda de motivação ou abandono dos propósitos de vida. Primeiramente, porque nenhum conhecimento adquirido é perdido. Na vida, todo saber é de alguma forma aproveitado. Depois, porque sempre é tempo de recomeçar a caminhada, buscando fazer corresponder a opção de curso de graduação universitária com as mais íntimas tendências e vontades de cada um. Todos nós temos um papel a desempenhar na vida em sociedade. Parte disso é a profissão que vamos exercer. E para que resulte exitosa, para nós e para os outros, nossa passagem pela vida, encontrar a nossa verdadeira vocação é uma questão essencial, pois é através do trabalho que estabelecemos um dos esteios fundamentais de nossa existência, de nossa relação com o mundo, de nossa identidade nas relações com as demais pessoas. Nosso “valor” é, em grande parte, medido pela nossa aptidão para o trabalho.

5.1.12

PRESSÁGIOS

      Novo ano. 2012 chegou. E é bom que, antes de março, antes do fim do Carnaval, comecemos a viver essa nova etapa. O futuro é hoje, dizem. E não estão completamente errados. Presságios não faltam, com direito a previsões de fim do mundo e tudo. Mas para quem não leva muita fé no armagedon previsto para dezembro de 2012, calha pisar firme no chão desde logo, renovando sonhos e vontades, chamando a si a feitura do destino, ao menos na parte que compete a cada um de nós. Os desígnios de Deus existem, ao menos para quem acredita no Ordenador Supremo do Universo. Mas é certo que Ele destinou todos os homens a agirem também conforme seu livre arbítrio, projetando no futuro as pegadas de hoje e do passado.
      Podemos nos reinventar a cada dia. Há sempre a chance de refazer e de se refazer. Enquanto houver vida, o limite terreno para a reconstrução humana não terá sido alcançado. E isso sim, com certeza, é de exclusiva deliberação Divina. Diz nosso Livro Sagrado que Deus só nos dá a cruz que podemos carregar. E os mais experientes na vida podem confirmar a assertiva. Todos têm seus fardos, menos pesados, mais pesados. Por vezes parecem insuperáveis as dificuldades que se apresentam. Mas o tempo se encarrega de demonstrar que se trouxemos o peso até aqui é porque podemos e devemos dar mais um passo adiante. Um passo depois do outro. Mas adiante. O rumo pode parecer incerto, mas no fundo sabemos, por intuição que seja, o lugar mais certo, ou menos errado, da próxima passada. Teremos sempre a possibilidade de escolher um caminho, ainda que as dificuldades da vida pareçam obstáculos ao movimento em direção ao futuro. Se estamos vivos, é porque devemos seguir adiante, com a chance diária de reconstruir tudo, recomeçar tudo, a chance de reinventar a vida.
      É certo que vamos arcar com os erros do passado. Poucas verdades são tão pertinentes quanto aquela ditada pelo senso comum: aqui se faz, aqui se paga. Mas, mesmo com um saldo devedor maior ou menor, continuaremos o caminho do aprimoramento e da busca do acerto. É conveniente exercitar a leitura do livro de nossas vidas, para que não repitamos os erros passados. Aqueles que, por mais consumados, não impedem a caminhada. Convém lançar boas sementes, ainda que o solo não seja tão fértil, pois a qualidade melhor ou pior dos insumos da vida é parte de nosso desafio de viver conforme a realidade. Enfrentamos os desafios do dia a dia com as ferramentas de que dispomos. E embora por vezes pareçam insuficientes os instrumentos aos nossos propósitos, é certo que herdamos também a capacidade de criar soluções. Criamos ferramentas, criamos manejos para as mais diversas e adversas situações. Sempre haverá uma chance para exercitarmos o bem, para vivermos pelo bem. Mesmo que não dependa somente de nós, nossa retidão, nosso bom senso, nosso melhor agir prevalecerá.
      Fazer o bem a si e aos outros, tanto quanto e vice-versa, parece mesmo um bom indicativo de rumo. Dá para dizer até que a nossa felicidade depende do quanto somos capazes de fazer feliz nosso próximo. Não nos enganemos. Não é de bens, títulos ou poderes que se compõem nossos momentos felizes. Eles são feitos de sensações que recolhemos das pessoas com quem ombreamos a vida. A felicidade é feita de coisas simples, coisas abstratas, fugidias. Coisas que decorrem de nossa relação com nosso semelhante. O melhor presságio para o novo ano é a nossa caminhada persistente, a passos mais ou menos largos, mas imbuídos do melhor propósito, firmes na fé depositada em nossos sonhos de uma vida e de um futuro melhor para nós e para todos.

29.12.11

2011, 2012

      Em 2011 ocupamos este valioso espaço literário para tentar contribuir com informações e ideias a respeito de variados assuntos. Tratava-se de convidar os leitores do Cooperjornal a algumas reflexões sobre os diversos temas abordados. Sem compromisso com verdades absolutas, conceitos ou teses hegemônicas, a ideia foi ir ao encontro da pretensão informativa e crítica deste consagrado meio de comunicação social de nossa região. A prova da retidão e da pertinência dos propósitos do Cooper está na assídua leitura semanal de milhares de pessoas, nas diversas cidades em que circula o jornal. O primeiro cumprimento devido ao cabo deste final de ano é, pois, para os leitores do Cooperjornal. O segundo cumprimento vai para a sua equipe de redação e jornalismo, além dos demais colaboradores e sua direção. Está de parabéns a Cooperativa Mista de Consumo e Produção Cultural Ltda., que, desde 1996, vem atendendo ao seu propósito de “ser uma alternativa em comunicação editorial, com críticas e propostas, de posição, não pretendendo ser o dono da verdade, tampouco apático. Pluralista e democrático nasceu para a defesa dos interesses de toda a comunidade regional, sempre em defesa do bem comum, buscando a união em torno de ideias” (http://www.cooperjornal.com.br/coopercultura).
      Escrevemos sob os títulos “A moda hoje”, “Sorrir para a adversidade”, “Enfrentamentos”, “Conselho Tutelar”, “Espaços de convivência”, “Liberdade e segurança”, “Paradigma do lixo”, “Desenvolvimento econômico”, “Usucapião por abandono do lar”, “A escola e a cesta de valores”, “Constituição e escola”, “Liberdade assistida”, “Prevenção e precaução”, “Adoção”, “Globalização sem globalitarismo”, “Greve”, “Código ambiental”, “A mídia e os valores morais”, “Fim dos tempos”, “A revolução do comércio”, “Profissionais do direito”, “O direito à estabilidade nos contratos”, “Insumos e externalidades”, “Jurisdição e democracia”, “O rosto” e “A confiança”, encerrando na edição de Natal com texto em primeira pessoa, compartilhando experiência pessoal do colunista, sob o título “Não acredita em Papai Noel”.
      Com uma proposta aberta e livre para os temas a serem abordados, foram as mais diversas as fontes de consulta utilizadas, prevalecendo alguma ênfase nas ciências jurídicas e sociais, dada a formação acadêmica do colunista. Os textos publicados podem ser visualizados no Blog Ética Sustentável (http://eticasustentavel.blogspot.com/). Podem também ser alvo de comentários, críticas, sugestões de parte dos leitores, diretamente ao colunista, pelo endereço eletrônico ricardosouza2065@gmail.com com a mais absoluta liberdade de opinião e de livre manifestação. Dito Blog, assim como a Coluna Ideias do Cooperjornal, propõe-se a ser um espaço de compartilhamento de reflexões, também sobre os mais variados temas, sendo mais do que oportuna a participação do leitor e da leitora, para dizer o que quiser a respeito dos assuntos abordados, ou sobre qualquer assunto, utilizando o endereço eletrônico disponibilizado para tanto. Nenhuma manifestação de qualquer leitor será nominalmente publicada, garantindo-se, assim como ocorre na filosofia de trabalho do Cooper, a plena liberdade de manifestação do pensamento de qualquer pessoa, seja leitor assíduo ou eventual. Quem escreve o que diz deve estar sempre preparado para ouvir quem tenha algo a dizer. E assim como o Cooperjornal, estamos preparados para esse intercâmbio de ideias, com espaços plenamente abertos para a participação da comunidade.
      Desejando um feliz Ano Novo a todos, encerramos nossa atividade na Coluna Ideias neste ano de 2011, esperando poder, em 2012, contribuir de alguma forma para o sucesso desses espaços de informação livre, aberta e crítica, sem a pretensão de apresentar verdades absolutas, mas com o propósito fundamental de somar na construção da democracia plena, participativa e crítica, assim como tem nos brindado o Cooperjornal em seus 15 anos de circulação.

26.12.11

NÃO ACREDITA EM PAPAI NOEL

      Conheci um sujeito que não acreditava em Papai Noel. Não era insistente, chato, presunçoso, ou um daqueles cujas opiniões pareciam ser as únicas existentes. Mas ele simplesmente não levava aquela fé comum de todos no “Bom Velhinho”. Não acreditava mesmo. Era sincero. Ele tinha nove filhos e vivia numa cidadezinha do interior, daquelas cheias de castas simbólicas e de ícones locais; baile disso, baile daquilo, com avenidas de nomes ilustres, contendas veladas e sempre com algum fuxico do momento. Mas ele só respondia se fosse perguntado: “não, não acredito”. Também não cria no então famigerado pouso lunar: “Que pisou na Lua coisa nenhuma, seu!” E, ressalvada alguma aparência, tinha uma fé moderada, tanto quanto sem exageros falava e atuava no geral da vida. Não era medíocre. Não lhe faltava capacidade de se colocar no lugar do outro e de ponderar as circunstâncias. Não se furtava a uma solução. Dizia que homem não nega conta, não exagera na bebida, não trai a amizade, não empresta carro e não pega em arma se não for pela vida. Dizia que mulher do próximo é assunto de respeito e que filho é bênção divina. Eis o resumo desse meu conhecido que já passou por este mundo, com quem pude por breves anos conviver.
      Para quem já procurou tantas respostas em compêndios e tratados, em doutrinas complexas, em escritos filosóficos de vários tempos e lugares, dizeres tão simples soam estrondosamente verdadeiros e por si explicativos à exaustão. Acontece é que realmente as verdades são simples. Tanto já se falou “do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas; da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Sampa, Caetano Veloso). Já disseram que “nos barracos da cidade ninguém mais tem ilusão; no poder da autoridade de tomar a decisão” (Nos barracos da cidade, Gilberto Gil). Devem ter xingado bastante João de Almeida Neto, ao que ele respondeu com rara beleza e singular eloquência: “Me chamam de boca braba; esta gente tá enganada; eu tenho é boca de homem; e tenho opinião formada; sei qual é a boca que explora; sei qual é a boca explorada; e é melhor ser boca braba; que não ter boca pra nada” (Razões do Boca Braba). E por toda parte se destacam os exemplos literários e poéticos. Não nos faltam as fontes de consulta. E podemos navegar por horas e horas. E podemos desvencilhar páginas e páginas das escorreitas brochuras. É livre o caminho para a descoberta.
      Mas então me retorna à mente meu velho conhecido descrente no Papai Noel. Aquele homem simplório, de poucas letras, com uma opinião tão desconfortável. Que tanta falta fez aquele sujeito ao seu meio. Por incrível, sua casa era a mais cheia no Natal. Filhos, genros, noras, filhas, sobrinhos, netos, parentes, amigos. O Natal era sempre lá na sua casa, na casa do meu descrente amigo. Eu mesmo presenciei seu gentil sarcasmo, sua dócil picardia sobre a crença no Papai Noel. É que o Natal para ele só existia de fato. Natal para ele era muito mais do que cumprimentos, presentes, Papai Noel, árvore, luzes ou ceia. Eram as pessoas que importavam. E todos se importavam com ele, porque ele dava sentido e rumo a tudo aquilo. Era natural – hoje percebo – que ele dissesse não acreditar no Papai Noel: era ele próprio o “Bom Velhinho”. Era ele que chamava a si responsabilidade pelos bons exemplos de vida que se concentravam festivamente nas comemorações natalinas. Sejamos, pois, cada um de nós um Papai Noel neste Natal.