26.1.12

MOVIMENTO COMUNITÁRIO

     A expressão “terceiro setor” geralmente é associada a entidades, muitas já consagradas na sociedade brasileira, que complementam ou suprem ausências ou deficiências de atuação do Estado no atendimento de necessidades de grupos de pessoas, específicos ou não, realizando atividades de importância incontestável. Basta citar, por exemplo, os clubes de serviço, como o Lyons Clube e o Rotary Clube, e as APAEs, para que se perceba o gigantismo das obras empreendidas por essas instituições em benefício da sociedade brasileira. Somam-se, dentre tantos, os movimentos hauridos no âmbito das instituições religiosas, congregando pessoas dispostas a atividades de solidariedade social, nas mais diversas funções, em atendimento às inúmeras faltas demandadas por pessoas e grupos. Nossas cidades – Três de Maio, Boa Vista do Buricá, São José do Inhacorá, Alegria, Nova Candelária e Independência – ostentam exemplos inúmeros, em que se revelam o desprendimento e a solidariedade das pessoas em favor de seu próximo. Para quem lida com a gestão pública, ciente das limitações existentes, muitas vezes, é a existência de tais movimentos e entidades a esperança de realizar na prática prestações que sem eles dificilmente poderiam ser atendidas.
      Mas existem também os movimentos e as entidades que atuam no atendimento de interesses difusos ou coletivos. Exemplos importantes, dentre os tantos existentes, são as associações de moradores. Entidades que podem ser concebidas num contexto maior de significação chamado movimento comunitário. Inserem-se nessa definição, porque representam – ou devem representar – interesses e aspirações fundadas na noção fundamental de cidadania, de liberdade de livre associação para fins e propósitos de ordem social. Instâncias de afirmação de identidades territoriais por excelência, são aptas a revelar um processo importantíssimo para a democracia republicana, convencionado a chamar-se movimento social organizado. Para quem vivenciou os tempos de Assembleia Constituinte no Brasil, idos de 1986, 1987 e 1988, não escapa da lembrança a atuação de entidades como a UAMPA, União de Associações de Moradores de Porto Alegre, e como a FRACAB, Federação Riograndense de Associações Comunitárias e Moradores de Bairro, esta última existente desde 1959, nos movimentos de afirmação e defesa da cidadania, por ocasião da Constituinte, ao lado de instituições consagradas e atuantes no mesmo propósito, como por exemplo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.
      Num ambiente republicano e democrático, o movimento comunitário é de suma importância para a construção permanente dos valores públicos essenciais ao funcionamento saudável da sociedade. Trata-se de congregar pessoas, partindo da referência de um território compartilhado no âmbito da cidade, propiciando o diálogo, o debate e a crítica sobre as questões que dizem respeito ao grupo. Quem não percebe a diferença entre uma demanda social trazida por um cidadão e a demanda trazida por uma entidade inserta no movimento comunitário? Quando uma associação de moradores delibera pela busca de uma prestação de parte dos Governos, o conteúdo da demanda ganha contornos mais amplos, ganha maior densidade, torna-se mais visível e compromete os demandados de forma muito mais intensa. É possível afirmar que a democracia representativa e participativa, tal como instaurada pela Constituição de 1988, não prescinde da atuação prática e efetiva do movimento comunitário. Longe, portanto, de ser uma instância assistencialista ou clientelista, as associações de moradores são das formas mais saudáveis de exercício da cidadania, traduzindo a base dos valores fundamentais a serem perseguidos pelos Governos e pela sociedade.

12.1.12

VOCAÇÃO

     Janeiro, época de vestibular, momentos tensos e difíceis para milhares de jovens. Muitos, recém-aprovados no ensino médio, já tiveram que fazer a opção por um curso de graduação, uma faculdade, uma profissão a seguir. É uma escolha difícil, especialmente para quem está no prelúdio da vida, na imensa maioria dos casos, sem experiência alguma em qualquer das possibilidades acadêmicas e profissionais que se vislumbram. Valem informações e conselhos dos pais, amigos, professores, profissionais conhecidos. É possível pesquisar a respeito das profissões na internet. Enfim, o jovem precisará contar também com boa dose de intuição para decidir qual curso de graduação pretende realizar.
      Grosso modo, é possível observar os cursos de graduação, e consequentemente as profissões resultantes, em três grandes grupos: o das “ciências exatas”, com esteio predominante na matemática e na física, englobando cursos como as engenharias; o das “ciências biológicas”, que abarcam as profissões ligadas à saúde, ao estudo da vida; e o das “ciências humanas”, aí incluídos cursos como comunicação social, letras e ciências jurídicas e sociais. Diz-se grosso modo, porque, em verdade, no campo das ciências ou conhecimentos aplicados, que se traduzem nos diversos cursos de graduação, há sempre componentes de outros ramos que são parte da formação acadêmica, como é o caso da medicina, que abrange conhecimentos de farmacologia; da psicologia, que abrange conhecimentos da medicina e da sociologia; da comunicação social e da arquitetura, que abrangem conhecimentos de história e geografia; do direito, que abrange conhecimentos de antropologia e ciência política. Acrescente-se a isso o fato de que, no mundo atual, e cada vez mais doravante, tendem as especialidades a se multiplicarem, mas, ao mesmo tempo, a tornarem-se multidisciplinares, isto é, com possibilidade de trânsito em outras esferas do conhecimento correlatas às necessidades impostas aos profissionais pelo mercado de trabalho. Vivemos uma época em que os conhecimentos e as habilidades que caracterizam as profissões não são estanques, necessitando-se cada vez mais de aptidão para se inserir no processo produtivo de forma conectada e pró-ativa com outros ramos do conhecimento ou com outras profissões.
      Todavia, é certo que são insuficientes esses referenciais genéricos, no escopo de solver a angústia própria de quem tem que tomar a primeira ou uma das primeiras grandes decisões na vida: escolher uma profissão. Por outro lado, é certo também – principalmente para os mais jovens, egressos recentes do ensino médio – que o eventual desacerto na opção de curso não é motivo para perda de motivação ou abandono dos propósitos de vida. Primeiramente, porque nenhum conhecimento adquirido é perdido. Na vida, todo saber é de alguma forma aproveitado. Depois, porque sempre é tempo de recomeçar a caminhada, buscando fazer corresponder a opção de curso de graduação universitária com as mais íntimas tendências e vontades de cada um. Todos nós temos um papel a desempenhar na vida em sociedade. Parte disso é a profissão que vamos exercer. E para que resulte exitosa, para nós e para os outros, nossa passagem pela vida, encontrar a nossa verdadeira vocação é uma questão essencial, pois é através do trabalho que estabelecemos um dos esteios fundamentais de nossa existência, de nossa relação com o mundo, de nossa identidade nas relações com as demais pessoas. Nosso “valor” é, em grande parte, medido pela nossa aptidão para o trabalho.

5.1.12

PRESSÁGIOS

      Novo ano. 2012 chegou. E é bom que, antes de março, antes do fim do Carnaval, comecemos a viver essa nova etapa. O futuro é hoje, dizem. E não estão completamente errados. Presságios não faltam, com direito a previsões de fim do mundo e tudo. Mas para quem não leva muita fé no armagedon previsto para dezembro de 2012, calha pisar firme no chão desde logo, renovando sonhos e vontades, chamando a si a feitura do destino, ao menos na parte que compete a cada um de nós. Os desígnios de Deus existem, ao menos para quem acredita no Ordenador Supremo do Universo. Mas é certo que Ele destinou todos os homens a agirem também conforme seu livre arbítrio, projetando no futuro as pegadas de hoje e do passado.
      Podemos nos reinventar a cada dia. Há sempre a chance de refazer e de se refazer. Enquanto houver vida, o limite terreno para a reconstrução humana não terá sido alcançado. E isso sim, com certeza, é de exclusiva deliberação Divina. Diz nosso Livro Sagrado que Deus só nos dá a cruz que podemos carregar. E os mais experientes na vida podem confirmar a assertiva. Todos têm seus fardos, menos pesados, mais pesados. Por vezes parecem insuperáveis as dificuldades que se apresentam. Mas o tempo se encarrega de demonstrar que se trouxemos o peso até aqui é porque podemos e devemos dar mais um passo adiante. Um passo depois do outro. Mas adiante. O rumo pode parecer incerto, mas no fundo sabemos, por intuição que seja, o lugar mais certo, ou menos errado, da próxima passada. Teremos sempre a possibilidade de escolher um caminho, ainda que as dificuldades da vida pareçam obstáculos ao movimento em direção ao futuro. Se estamos vivos, é porque devemos seguir adiante, com a chance diária de reconstruir tudo, recomeçar tudo, a chance de reinventar a vida.
      É certo que vamos arcar com os erros do passado. Poucas verdades são tão pertinentes quanto aquela ditada pelo senso comum: aqui se faz, aqui se paga. Mas, mesmo com um saldo devedor maior ou menor, continuaremos o caminho do aprimoramento e da busca do acerto. É conveniente exercitar a leitura do livro de nossas vidas, para que não repitamos os erros passados. Aqueles que, por mais consumados, não impedem a caminhada. Convém lançar boas sementes, ainda que o solo não seja tão fértil, pois a qualidade melhor ou pior dos insumos da vida é parte de nosso desafio de viver conforme a realidade. Enfrentamos os desafios do dia a dia com as ferramentas de que dispomos. E embora por vezes pareçam insuficientes os instrumentos aos nossos propósitos, é certo que herdamos também a capacidade de criar soluções. Criamos ferramentas, criamos manejos para as mais diversas e adversas situações. Sempre haverá uma chance para exercitarmos o bem, para vivermos pelo bem. Mesmo que não dependa somente de nós, nossa retidão, nosso bom senso, nosso melhor agir prevalecerá.
      Fazer o bem a si e aos outros, tanto quanto e vice-versa, parece mesmo um bom indicativo de rumo. Dá para dizer até que a nossa felicidade depende do quanto somos capazes de fazer feliz nosso próximo. Não nos enganemos. Não é de bens, títulos ou poderes que se compõem nossos momentos felizes. Eles são feitos de sensações que recolhemos das pessoas com quem ombreamos a vida. A felicidade é feita de coisas simples, coisas abstratas, fugidias. Coisas que decorrem de nossa relação com nosso semelhante. O melhor presságio para o novo ano é a nossa caminhada persistente, a passos mais ou menos largos, mas imbuídos do melhor propósito, firmes na fé depositada em nossos sonhos de uma vida e de um futuro melhor para nós e para todos.