27.7.11

LIBERDADE E SEGURANÇA

     Caríssimo valor que é ao mesmo tempo instrumento e fundamento da realização individual e coletiva, a liberdade real não se desprende do limite imposto pela responsabilidade efetiva. Mais do que isso, apresenta-se como uma contrapartida, um complemento necessário, um limite, também, para outro valor não menos caro, fundamental e instrumental para a vida em sociedade: a segurança.
     Exemplos de importância da liberdade como valor estruturante não faltam. No domínio da economia, em regra, a liberdade é ao mesmo tempo meio e finalidade, sob os dogmas da livre iniciativa e da igualdade de oportunidades. Na política, é da livre organização e expressão dos protagonistas e das ideologias que resulta o colorido multifacetado da democracia. O ambiente em que se processa a cultura também não prescinde da liberdade, como garantia de um porto seguro ao se retornar da mágica viagem empreendida pelas vias da criatividade. Nas relações interpessoais, seja na família, no grupo, na comunidade, ou mesmo na sociedade, esta compreendida como identidade coletiva comum no tempo e no espaço, a liberdade se apresenta como pressuposto natural do diálogo essencial, tanto no entendimento compartilhado das comunidades, como nos consensos necessários para o desenvolvimento. A liberdade é assim tão instrumental quanto estruturante, exigindo-se tão somente que seja efetiva e real, tanto quanto se tribute o agir humano com a necessária responsabilidade.
      Mas a liberdade não esgota a compreensão da sociedade como meio viável de compartilhamento dos bens da vida. A necessidade de segurança como valor essencial e instrumental, inclusive para a liberdade, salta aos olhos mesmo daqueles mais empolgados na defesa do agir liberto como dogma fundamental. É essencial que se assegure a vida, a inclusão efetiva, o livre pensar e o livre dizer, para que se tenha um ambiente propício ao desenvolvimento saudável. Sob esse aspecto, principalmente no campo econômico, não basta a igualdade formal de oportunidades, sem a garantia de reais mecanismos inclusivos, pena de insuperável desorganização na fruição daqueles bens da vida. É preciso assegurar a liberdade. São necessárias vigas e esteios que estabeleçam a mínima higidez essencial para a vida em sociedade. É preciso garantir o dissenso para viabilizar o consenso. Não há entendimento compartilhado que supere a necessária garantia para que o diferente se expresse e empreenda a mudança de entendimento. Mesmo as comunidades portadoras da maior ênfase na preservação de seus valores não dispensam a atribuição de espaços propícios à revisão dos dogmas comunitários.
      E assim prossegue a Humanidade e cada um, pois é da essência da liberdade a segurança, que por sua vez só se justifica para a realização da liberdade. A liberdade de um não pode servir de atentado à segurança de todos, cuja liberdade somente se realiza quando a segurança de cada um é garantida. Os valores da liberdade e da segurança estão portanto imbricados, numa totalidade cujas partes não perdem cada uma seus conteúdos essenciais. Liberdade e segurança são valores complementares entre si, estão em constante abalo, tensão e distensão, uma complementaridade dialética em permanente devir, valores que se manifestam em cada um e em todos, funcionamento que é de essência humana, na sina vital de fruição do mundo e da vida, sem que se estabeleçam estanques e definitivos limites para um e para outro.
ricardosouza2065@gmail.com

24.7.11

ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA

      A modernidade nos trouxe até um mundo em que boa parte da vida se passa no plano da virtualidade, no mundo digital, o mundo do Facebook, do eHarmony, do Badoo, do Orkut, do MySpace, do LinkedIn, do Messenger e de tantos outros lugares etéreos. Trabalho, relações comerciais, relações sociais e familiares, grande parte em redes de informações, sistemas de registros on line, segundo critérios e métodos da World Wide Web. Nossa relação com o dinheiro passou para um plano que é distante de maços de notas ou de cofres: visualizamos nossos pagamentos e despesas através de extratos e faturas na tela do computador. E nesse quadro podemos indagar: vamos aonde assim? Como será doravante, já que todas essas estruturas estão impregnadas em nossas vidas?
      Previsões sinistras não faltam. Fatos desencadeados por “culpa” da internet pipocam nas colunas de opinião. Chegamos a fantasiar tempos em que as máquinas ultrapassam a inteligência dos humanos e vão controlar a vida no Planeta. Não faltam bons filmes sobre o tema. Mas também não se discute que as tecnologias de informação e comunicação disponíveis são de utilidade incontestável. Simplificamos as coisas, quando utilizamos programas, tabelas, mecanismos de busca de informações, como Google, Bing ou Wikipedia. O mundo da informação e comunicação digital é uma realidade que parece não admitir reveses.
      E seria necessário algum revés? Seria necessário renunciar aos espaços virtuais para retomar algum tipo de relação que nele não se pode operar? Teria o mundo virtual substituído completamente o mundo real? Poderá fazê-lo algum dia?
      Em verdade, as pessoas, apesar de todas as limitações impostas pelo meio, este mundo cada vez mais tecnológico, cada vez mais on line, acabam encontrando espaços de convivência real. Acabam, enfim, criando mesmo tais espaços, quando eles não existem ou não foram previamente definidos como tais. O chamado mundo digital não precisa necessariamente ser tomado como um obstáculo à convivência real. Marcamos encontro com os amigos pelo msn. Mandamos mensagens eletrônicas de felicitações pelo aniversário a uma pessoa com quem vamos estar no dia seguinte no trabalho. Formamos naturalmente grupos de pais que esperam a saída dos filhos para o passeio da escola, conversando sobre assuntos de razoável importância, por algum tempo, retirando muitas vezes boas ideias de tais conversas. Às vezes até descobrimos que já éramos “amigos” no Orkut. Tomamos conta das praças da cidade – sempre carentes de mais assentos, aliás – com nossas cadeiras de praia, dialogando com pessoas que não conhecíamos até então. Tornamos o posto de abastecimento de combustível um local de encontro, não necessariamente vinculado ao consumo de mercadorias.
      O que se vê, de fato, é que as pessoas continuam se buscando, encontrando-se e promovendo aproximações reais. Há um impulso natural nisso. No ponto de ônibus, durante a viagem, na fila dos bancos, das lojas, e mesmo naqueles locais projetados para circulação intensa, sem paradeiros de alteridade, como são os shopping centers, feiras e microcidades de comércio. As pessoas buscam o encontro com o outro. E o fazem porque esse é o impulso natural do ser humano. O mundo digital pode atingir praticamente todos os espaços. E mesmo que tenha a pretensão de suprimir a convivência real, ela se dará de um jeito ou de outro, pois somente os seres humanos podem criar “um jeito ou outro”, improviso de alteridade que o mundo do software/hardware nunca poderá alcançar, necessidade humana que nunca poderá suprir.

8.7.11

ENFRENTAMENTOS

      Existem enfrentamentos inarredáveis. Adiáveis, talvez. Mas, por certo, sem chance de que não se operem, mais dia menos dia, na prática da vida. É da natureza humana funcionar na base de perguntas e, quiçá, de respostas.
      Inventam-se razões instrumentais e comunicativas, para não explicar o âmago dos problemas. Ressoam vigorosos argumentos sobre o fim dos idealismos modernos. É a época da apologia das fragmentações e dos hedonismos inconsequentes. Uma ideia que teima em propagar que as coisas chegaram a esse ponto e daqui não mais tendem a mudar em essência.
      Há um certo comodismo nisso. Há também uma velada intenção de muitos de que assim se mantenha o senso comum. Um girar constante sem se chegar a lugar algum. Cada vez menos a tal opinião pública está sendo formada em espaços públicos reais, de contato direto, com pessoas travando relações verdadeiramente interpessoais. É a formação de uma subjetividade massificada que teima em se instalar por definitivo em nosso meio.
      Todavia, as peguntas acabam surgindo. É da natureza humana que isso aconteça, como dito. As pessoas acabam, mais dia menos dia, construindo espaços de relação pessoal, do jeito que podem.
      E é preciso ter presente: se as respostas são resultado de descrições, algo estático, fixo, ou feito para ser fixado, as perguntas, não. Perguntas correspondem sempre a uma “ação mental”.
      Pergunta é processo; resposta é estado.
      Na realidade, então, é a pergunta, e não a resposta, que é constitutiva da essência humana. É possível dizer que a Humanidade resulta da pergunta. A humanidade também. E a desumanidade também.
     Aliás, transformar capciosamente em pergunta tendenciosa aquilo que não passa de resposta manipulada é dos mais perversos atos de desumanidade. Isso, porque atenta contra a essência, contra o fundamental, contra a estrutura. Atenta contra a mente e contra a moral, partes do tripé que forma a estrutura do ser humano.
      Mas no que consiste o enfrentamento? Em responder? Não, o enfrentamento é perguntar. Submeter ao encantado crivo da pergunta é o mais humano dos enfrentamentos.
      E não é a resposta que verdadeiramente ilude, mascara, profana inconfessadamente. É a pergunta desumana. O mais profundo e destrutivo golpe no pensar humano é a pergunta capciosa e manipuladora. É ela que desvia, que aponta para o vazio ofuscado na moldura da hipocrisia. É ela que suga e seca a humanidade do pensar que só pode existir pela pergunta.
      Afinal, que todas as perguntas levem a mais perguntas, e que nenhuma pergunta esteja por completo respondida; que todos perguntem e possam sempre todos perguntar; que se preserve e estimule a humanidade dos seres humanos, combatendo-se a desumanidade, inclusive e fundamentalmente, nas perguntas.
ricardosouza2065@gmail.com