2.8.13

DA CLASSE MÉDIA PARA BAIXO E DAQUI DE DENTRO PARA FORA

     É chegado o tempo em que, mesmo os setores mais conservadores da sociedade, começam a admitir as conclusões há muito construídas e alardeadas com paixão, civismo, espírito crítico e democrático, muitas resultantes de lutas sociais e políticas, seja fora ou dentro do Estado, com incontáveis mártires, teóricos e práticos, todos alvos de ofensivas ferrenhas, muitas vezes pudicas e aparentemente “calminhas” - como determinam os modos tidos como “normais”.  
    Muitas pessoas que, por amor à pátria, à causa do povo oprimido, ao próximo, entregaram-se à luta social e política contra valores e ditames importados desde o tempo da colonização, foram excluídas, silenciadas, sumiram até, com gente ainda dizendo que reabrir os arquivos da mais recente ditadura (de direito e de fato) havida em nossa terra é não mais do que um “exercício de ódio” e “um atentado à paz social”. Que paz social? As pessoas estão nas ruas, e em grande parte movidas por motivos específicos, setoriais, classistas, que não correspondem a algum “esquema político organizado para desestabilizar as instituições”. Saem às ruas protestando, porque é direito de todos sair às ruas para protestar. Ou cumprimos a Constituição, que muitos não conseguem engolir, ou deixamos que rasguem o que sobrou das gloriosas lutas sociais e políticas do início e meados dos anos de 1980.
     Está cada vez mais evidente que a nova fase do capitalismo que se inicia vai proletarizar cada vez mais as burguesias nacionais dos países periféricos que seguem a cartilha do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da Organização Mundial do Comércio. O capital está ganhando autonomia, está funcionando sozinho, produzindo fragmentação de valores tradicionais, desmotivação para o exercício da tão alardeada “livre iniciativa”. Livre para quem?  
    O sistema que se instala no mundo é o da hegemonia das empresas transnacionais, que não deixam de receber os incentivos dos governos de seus países de origem, todos do chamado “Primeiro Mundo”. Aliás, nunca se viu tanto caos em setores como a saúde, além do crescente endividamento e empobrecimento da população, na pátria de nossos irmãos norteamericanos. Está cada vez mais difícil executar a velha tática de entreter o povo com as gloriosas “intervenções” em países do Terceiro Mundo, sob os mais esdrúxulos pretextos.   
   As constituições europeias foram rasgadas. O regimento social, econômico e político da Europa são os cânones jurídicos da “Comunidade Europeia”. Não é de estranhar, pois, na origem, o tal “contrato social” tão festejado desde o século XVIII não incluiu os povos africanos, da Oceania e principalmente da América Latina, incluída a rotulada “América Central”. Um pacto desses, mais dia, menos dia, tinha que soçobrar mesmo.
     E o pior é que justamente, e mais uma vez, é a dita “Classe Média” que acaba sendo a grande massa de manobra do sistema. Foi assim em 1889, quando os militares foram apoiados pela burguesia comercial e industrial incipiente e pelo latifúndio, para instituírem, em 1891, “os Estados Unidos do Brasil”. 
    Houve momentos bons, não esqueçamos. Em 1961, quando da Legalidade, foi a falta de apoio da classe média aos setores golpitas, além da qualidade das organizações sociais e político-partidárias da época, que garantiram a posse do presidente trabalhista. 
   Em 1964 já foi diferente. Com promessas de “fundos e mundos”, na esteira da sonhada “liberdade para o progresso” a largas passadas, com endividamento, corrupção, violência, tortura, ruptura total da ordem democrática, assassinatos oficializados, lavagem cerebral nas instituições de ensino e tantas outras mazelas, a classe média apoiou, em sua maioria, o escandaloso golpe de Estado de 31 de março de 1964. 
    E não nos iludamos. Foi depois da crise do petróleo de 1974, quando as coisas começaram a piorar para os "intermediários da pirâmide", momento que foi bem aproveitado pelas lutas legítimas em prol do restabelecimento da democracia, que se acirraram e se reorganizaram os movimentos democráticos contra a ditadura, o que culminou com uma Constituição avançada em 1988, embora prolixa, mas muito além do imaginável para um país que ainda se pautava pelas “ordenações iluminadas” do Consenso de Washington.
    Mas saibamos todos que, mesmo pertencendo o futuro a Deus, é sabido que Ele delegou sua feitura aos humanos já faz um tempinho bom. É ora de parar de repetir a cartilha da moral burguesa do século XIX e se preparar para os grandes desafios para a democracia nos anos que se seguirão. 
   As pessoas, que antes eram indiferentes, por conta das diferenças de classe, estão cada vez mais próximas. Há um consenso a se formar, no sentido de que estamos todos no mesmo barco, patrões e empregados, ricos, remediados e pobres, e que a solução para os nossos problemas não é uma só e nem vem de fora. Somente terá chance se partir daqui de dentro, conectando movimentos e organizações comprometidos com a realidade, inclusive entre países que ostentam a mesma condição de “subdesenvolvidos”.