10.5.12

EMOÇÃO E AUTENTICIDADE

     Das incursões pela pela internet, sugeriu-me uma amiga assistir a um vídeo no You Tube, em que um jovem cantor britânico, PAUL MALAKI, de nove anos de idade, apresentou-se na televisão inglesa, em um programa de talentos. O vídeo está disponível em http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=txPQC8NB_-M. Chama a atenção a forma como se deu a apresentação do menino, que interpretava uma música da badalada Beyonce, perante seleto grupo de jurados adultos, diante de uma plateia, sob o olhar tenso de uma dedicada mãe nos bastidores do palco. A originalidade da performance residiu fundamentalmente na espontaneidade do jovem artista, que, já nas primeiras estrofes da canção, não conteve suas emoções, desabando em copioso choro, solidarizado de pronto pela plateia, pelos apresentadores e pela mãe. Mais do que isso, até a redação deste artigo, o vídeo já contava com quase um milhão de acessos, indicando algo mais de relevante no episódio do que a simples demonstração de um fato que é comum no mundo artístico, mas que, no caso, pela autenticidade da expressão do jovem cantor, acabou por iconizar-se na rede, suscitando toda sorte de abordagens e conclusões.
   As pessoas querem se emocionar. Não se trata de emoção racionalmente construída numa obra de arte feita com esse propósito. Qualquer obra de arte pode emocionar. Mas o peculiar do caso é que a reação do público indica que se quer é vivenciar o autêntico, o humano, o verdadeiro. É preciso ver, ouvir, apreciar a expressão do que é sentido, como se ecoasse uma necessidade de manifestação do conteúdo humano de cada um. O sentimento puro e transparente de um menino emocionado com a canção que interpretava bateu certeiro no coração do público. É a humanidade da performance que chama a atenção. A originalidade veio da imagem inocente do jovem artista de nove anos de idade, coroado por uma belíssima voz, que, longe de claudicar por deficiência nas técnicas de canto, vacilou em emocionado pranto incontido, revelando completa absorção pela obra que interpretava, chegando ao extremo de não poder prosseguir com a apresentação, por conta de incontrolada erupção de sentimento manifestada no choro diante da plateia. A emoção está em alta. Por mais paradoxal que possa parecer, num mundo de matizes tão utilitaristas e pragmáticos, em que a racionalidade é celebrada em todas as esferas da comunicação e até mesmo da arte, as pessoas buscam autenticidade e sentimento verdadeiro. O autêntico e o original também estão em alta. Não há racionalidade discursiva que supere o poder da empatia diante da emoção. A humanidade na expressão é o mais impactante atributo que franqueia o trânsito pelos caminhos do sentimento.
    Não se trata de supervalorizar as qualidades da retórica ou de exigir que toda manifestação cultural seja emocionalmente escaldante. As pessoas não querem ser apenas sujeitos difusos de uma individualidade relativa. As pessoas precisam singularizar-se. É preciso que as palavras e os discursos sejam inclusivos em seu sentido humano. Isso para ficar apenas no universo das expressões escritas ou faladas. O povo quer se ver nas frases proferidas ou escritas. As grandes causas da modernidade vão deixando aos poucos o lugar de “protagonistas” dos movimentos da cultura e da sociedade, passando por um processo de reelaboração no imaginário coletivo, que não prescinde de uma estrutural vinculação com as aspirações de um novo sujeito, que reclama a dignidade de seus sentimentos, que quer afirmar suas aspirações, que busca a valorização de suas qualidades como tais e próprias para a realização de sua felicidade. Quaisquer agenciamentos de subjetividade precisam tocar na alma de seus destinatários. Nesse milênio há pouco iniciado, molda-se esse novo sujeito que quer ser protagonista dos fatos do mundo, admitido inteira e ativamente, aceito por sua individualidade, incluído por suas qualidades humanas fundamentais.
    O Ex-Presidente LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA talvez seja o exemplo mais próximo e verdadeiro acerca da propriedade humana que deve imantar e conduzir qualquer argumentação política. Não é exatamente a simplicidade do texto que o aproxima de seus destinatários; é a inclusão deles no seu prognóstico argumentativo. É essa espécie de cumplicidade, apta a ser experimentada por quem, muito mais do que escutar sobre a pertinência de tal ou qual assertiva, quer sentir a autenticidade do enunciado, por sua congruência e vinculação com os sentimentos mais humanos e reais de qualquer pessoa.