10.10.11

GREVE

      Diz a Constituição, que completou anteontem (5 de outubro de 2011) 23 anos de vigência, que é assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender, devendo a lei definir os serviços ou atividades essenciais, dispor sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade e sobre os abusos cometidos que sujeitam os responsáveis às penas da lei. Trata-se, pois, de um direito fundamental, estruturante do regime democrático e da forma republicana do Estado Brasileiro, também regulado pela Lei 7.783, de 28 de junho de 1989.
      Referida lei dispõe que se considera legítimo exercício do direito de greve a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador, bem assim que frustrada a negociação ou verificada a impossibilidade de recursos via arbitral, é facultada a cessação coletiva do trabalho. Dispõe também que são assegurados aos grevistas, dentre outros direitos, o emprego de meios pacíficos tendentes a persuadir ou aliciar os trabalhadores a aderirem à greve e a arrecadação de fundos, além da livre divulgação do movimento. É vedado às empresas adotar meios para constranger o empregado ao comparecimento ao trabalho, bem como capazes de frustrar a divulgação do movimento. Em nenhuma hipótese, os meios adotados por empregados e empregadores poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem. E, pensando na greve dos bancários, deflagrada em 27 de setembro de 2011, é bom lembrar que são considerados serviços essenciais aqueles cuja paralisação resulte em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos, ou essenciais à retomada das atividades da empresa quando da cessação do movimento, ditando a lei, quanto às atividades bancárias, a essencialidade apenas do serviço de compensação.
      É a partir de tais normas e princípios básicos que se pode aferir a qualidade de um movimento como o dos trabalhadores bancários. Não será com análises que partem de premissas unilaterais e verticais, muitas de postura incofessadamente arbitrária e antidemocrática, que a sociedade poderá avaliar o movimento dos trabalhadores. Cumpre a todos os formadores de opinião, particularmente à imprensa, a notícia e a análise dos movimentos em bases democráticas, partindo da ideia de que se trata de direito fundamental o de cessar coletivamente a prestação de trabalho, quando contrariada em seus interesses categoria de trabalhadores. E é bom lembrar que é a categoria de trabalhadores que decide quais são os interesses contrariados que justificam a greve, sua oportunidade e conveniência.
      Pensar assim não é defender unilateralmente um movimento ou outro, ou uma categoria de trabalhadores, ou a greve que se processa no momento. Não. Trata-se, apenas, de balizar o pensamento sobre o assunto conforme as regras estabelecidas, que têm por fundamento pétreo uma garantia constitucional inarredável. É preciso varrer do senso comum qualquer ideia que se afaste do regime democrático e da forma republicana. É preciso conceber os direitos assegurados, bem como a possibilidade de litígio sobre eles. A litigiosidade é da natureza da liberdade. Não se pode esperar que num Estado Democrático não se deflagrem conflitos de classe, pois a democracia se estrutura a partir da diversidade de opiniões e de interesses, o que é absolutamente natural e saudável.

O CAÇADOR E O SONHADOR

     Pior do que não ter ideais é ser um sonhador desiludido. É não ver perspectiva num sonho que se elaborou ao longo de uma vida às vezes. Alguém que já sonhou. Sonhou certo, sonhou errado. Agiu errado, agiu certo. Tudo em nome do sonho, da esperança, da aposta no devir, da aposta na alteridade verdadeira, que compartilhe o sonho, que construa junto novos sonhos. 
    Age errado o sonhador, muitas vezes contra o seu propósito verdadeiro até, sem querer até, porque o sonhador compartilha o sonho. 
   Desilusão não é apenas um diagnóstico de um tempo passado de sofrimento: é uma insípida visão de que o futuro, como pensa o não sonhador, não passa de um dia depois do outro. 
    Como fazer projetos para o futuro, se a desilusão sempre teima em se manifestar, de um jeito ou de outro? Sonhar é partir de uma realidade, que pode ser dura, difícil, caótica, mas que é ao mesmo tempo envolvida por uma esperança contagiante. A esperança do sonhador. Descobrir num belo dia que toda nossa energia, toda nossa esperança, foi resumida em um indiferente e cético “não”, em uma exclusão normalizada pelo mundo da hipocrisia dos não sonhadores, uma mentira, tudo isso é motivo para não querer guardar mais ilusões. 
     E as ilusões não são guardadas nos nossos cofres; as ilusões nossas ficam em cofres alheios sempre. É da natureza da esperança acomodar-se na alteridade do sonhador. Por isso o cofre alheio precisa ser envolvente, cúmplice, sincero, verdadeiro, contagiante, uma espécie de garantia que apoia e reserva um lugar especial para o nosso sonho. Sim, nosso. Porque o sonho do sonhador nunca é só dele. Só existe como sonho na medida de seu compartilhamento. Algo diferente disso não é sonho. É outra coisa, que o sonhador desconhece, até o dia em que descobre que seu sonho não estava bem guarnecido, não passava de uma fonte de consulta, um dicionário, um calço, um instrumento, uma alavanca. 
     Não são todas as pessoas que são sonhadoras. As que não são, no geral, se apoiam nos sonhos daqueles que são, constroem até suas vidas a partir daqueles sonhos que não são seus, que não compartilharam com o sonhador que os depositou e compartilhou. E o sonhador fica ali, de lado, longe dos segredos de felicidade dos aproveitadores dos sonhos. O sonhador depositou sua lealdade, sua confiança, seu sonho, no ser alheio. A felicidade verdadeira do sonhador só acontece junto, na relação, na alteridade, porque o sonho só é sonho, quando é compartilhado. Sonhadores motivam, estimulam, sem hipocrisias, sem mentiras. Sorte para os que não são sonhadores poderem viver um tempo com eles, embora os não sonhadores tenham sempre um motivo secreto para os seus atos, seus afetos, seus compartilhamentos. 
   A felicidade dos sonhadores é uma superfície, cuja profundidade nunca é revelada. Aquele que não sonha de verdade somente se inspira no sonho de verdade do sonhador. E o pior. Às vezes ainda o faz como se a inspiração ou o sonho fossem seus. 
     O sonhador é um agricultor do mundo. Prepara o terreno, semeia, planta e fica ali, sonhando. Os passantes, não sonhadores, sabendo que os sonhadores gostam de compartilhar seus sonhos, ficam por ali também um pouco, fingindo até sonharem juntos, mas não perdem a oportunidade de observar o ambiente, para, quando for oportuno, retomarem sua caçada. Sim. O não sonhador não é um agricultor do mundo; ele é um caçador do mundo. Sempre será. Não se acomoda. Envolve-se somente o necessário para recarregar suas energias, apropriar-se de alguns métodos e até de alguns sonhos mais breves, mas sua verdadeira felicidade, seu prazer, é caçar. Caçar e caçar de novo. Sempre. O não sonhador não sonha, porque ele nunca tem certeza de que irá concretizar seu sonho. E ele não suporta essa dúvida. Sempre pode acontecer de a caçada não “dar em nada”. 
    Não é como o agricultor que sabe que vai colher o que plantou. Menos a parte do não sonhador, é claro, que não costuma devolver os sonhos roubados. 
  Agricultores, sonhadores, caçadores, não sonhadores, sobreviventes de um mundo de predadores. Cada um por seus motivos e à sua maneira. E o sonho do predador se limita apenas à nova caçada que haverá de empreender. Só. Eis o vazio do caçador e a frustração do sonhador.