24.7.11

ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA

      A modernidade nos trouxe até um mundo em que boa parte da vida se passa no plano da virtualidade, no mundo digital, o mundo do Facebook, do eHarmony, do Badoo, do Orkut, do MySpace, do LinkedIn, do Messenger e de tantos outros lugares etéreos. Trabalho, relações comerciais, relações sociais e familiares, grande parte em redes de informações, sistemas de registros on line, segundo critérios e métodos da World Wide Web. Nossa relação com o dinheiro passou para um plano que é distante de maços de notas ou de cofres: visualizamos nossos pagamentos e despesas através de extratos e faturas na tela do computador. E nesse quadro podemos indagar: vamos aonde assim? Como será doravante, já que todas essas estruturas estão impregnadas em nossas vidas?
      Previsões sinistras não faltam. Fatos desencadeados por “culpa” da internet pipocam nas colunas de opinião. Chegamos a fantasiar tempos em que as máquinas ultrapassam a inteligência dos humanos e vão controlar a vida no Planeta. Não faltam bons filmes sobre o tema. Mas também não se discute que as tecnologias de informação e comunicação disponíveis são de utilidade incontestável. Simplificamos as coisas, quando utilizamos programas, tabelas, mecanismos de busca de informações, como Google, Bing ou Wikipedia. O mundo da informação e comunicação digital é uma realidade que parece não admitir reveses.
      E seria necessário algum revés? Seria necessário renunciar aos espaços virtuais para retomar algum tipo de relação que nele não se pode operar? Teria o mundo virtual substituído completamente o mundo real? Poderá fazê-lo algum dia?
      Em verdade, as pessoas, apesar de todas as limitações impostas pelo meio, este mundo cada vez mais tecnológico, cada vez mais on line, acabam encontrando espaços de convivência real. Acabam, enfim, criando mesmo tais espaços, quando eles não existem ou não foram previamente definidos como tais. O chamado mundo digital não precisa necessariamente ser tomado como um obstáculo à convivência real. Marcamos encontro com os amigos pelo msn. Mandamos mensagens eletrônicas de felicitações pelo aniversário a uma pessoa com quem vamos estar no dia seguinte no trabalho. Formamos naturalmente grupos de pais que esperam a saída dos filhos para o passeio da escola, conversando sobre assuntos de razoável importância, por algum tempo, retirando muitas vezes boas ideias de tais conversas. Às vezes até descobrimos que já éramos “amigos” no Orkut. Tomamos conta das praças da cidade – sempre carentes de mais assentos, aliás – com nossas cadeiras de praia, dialogando com pessoas que não conhecíamos até então. Tornamos o posto de abastecimento de combustível um local de encontro, não necessariamente vinculado ao consumo de mercadorias.
      O que se vê, de fato, é que as pessoas continuam se buscando, encontrando-se e promovendo aproximações reais. Há um impulso natural nisso. No ponto de ônibus, durante a viagem, na fila dos bancos, das lojas, e mesmo naqueles locais projetados para circulação intensa, sem paradeiros de alteridade, como são os shopping centers, feiras e microcidades de comércio. As pessoas buscam o encontro com o outro. E o fazem porque esse é o impulso natural do ser humano. O mundo digital pode atingir praticamente todos os espaços. E mesmo que tenha a pretensão de suprimir a convivência real, ela se dará de um jeito ou de outro, pois somente os seres humanos podem criar “um jeito ou outro”, improviso de alteridade que o mundo do software/hardware nunca poderá alcançar, necessidade humana que nunca poderá suprir.