8.7.11

ENFRENTAMENTOS

      Existem enfrentamentos inarredáveis. Adiáveis, talvez. Mas, por certo, sem chance de que não se operem, mais dia menos dia, na prática da vida. É da natureza humana funcionar na base de perguntas e, quiçá, de respostas.
      Inventam-se razões instrumentais e comunicativas, para não explicar o âmago dos problemas. Ressoam vigorosos argumentos sobre o fim dos idealismos modernos. É a época da apologia das fragmentações e dos hedonismos inconsequentes. Uma ideia que teima em propagar que as coisas chegaram a esse ponto e daqui não mais tendem a mudar em essência.
      Há um certo comodismo nisso. Há também uma velada intenção de muitos de que assim se mantenha o senso comum. Um girar constante sem se chegar a lugar algum. Cada vez menos a tal opinião pública está sendo formada em espaços públicos reais, de contato direto, com pessoas travando relações verdadeiramente interpessoais. É a formação de uma subjetividade massificada que teima em se instalar por definitivo em nosso meio.
      Todavia, as peguntas acabam surgindo. É da natureza humana que isso aconteça, como dito. As pessoas acabam, mais dia menos dia, construindo espaços de relação pessoal, do jeito que podem.
      E é preciso ter presente: se as respostas são resultado de descrições, algo estático, fixo, ou feito para ser fixado, as perguntas, não. Perguntas correspondem sempre a uma “ação mental”.
      Pergunta é processo; resposta é estado.
      Na realidade, então, é a pergunta, e não a resposta, que é constitutiva da essência humana. É possível dizer que a Humanidade resulta da pergunta. A humanidade também. E a desumanidade também.
     Aliás, transformar capciosamente em pergunta tendenciosa aquilo que não passa de resposta manipulada é dos mais perversos atos de desumanidade. Isso, porque atenta contra a essência, contra o fundamental, contra a estrutura. Atenta contra a mente e contra a moral, partes do tripé que forma a estrutura do ser humano.
      Mas no que consiste o enfrentamento? Em responder? Não, o enfrentamento é perguntar. Submeter ao encantado crivo da pergunta é o mais humano dos enfrentamentos.
      E não é a resposta que verdadeiramente ilude, mascara, profana inconfessadamente. É a pergunta desumana. O mais profundo e destrutivo golpe no pensar humano é a pergunta capciosa e manipuladora. É ela que desvia, que aponta para o vazio ofuscado na moldura da hipocrisia. É ela que suga e seca a humanidade do pensar que só pode existir pela pergunta.
      Afinal, que todas as perguntas levem a mais perguntas, e que nenhuma pergunta esteja por completo respondida; que todos perguntem e possam sempre todos perguntar; que se preserve e estimule a humanidade dos seres humanos, combatendo-se a desumanidade, inclusive e fundamentalmente, nas perguntas.
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