26.12.11

O ROSTO

      Rostos que riem, que choram. Rostos impassíveis, com remorso. Rostos apreensivos, desiludidos. Rostos que mentem, na tentativa de encobrir sentimentos. Rostos que caricaturam expressões que só existem nos símbolos de seus protagonistas. Sim. Protagonistas. Pois já se disse que o rosto é a janela da alma, e é com o rosto fundamentalmente que construímos as sensações que permeiam as relações humanas. É por isso que o rosto é mais do que a face, “cara”. O rosto é a face dotada de todos os outros acessórios que fazem a apresentação do indivíduo na alteridade. Os olhos, que estão no rosto, são a janela da alma, o espelho do Mundo, como dissera Leonardo di Ser Piero da Vinci. E as variações do rosto são tão mais infinitas quanto o talento daquele mestre italiano do Renascimento. Para nós, grosso modo, os indivíduos formigas, abelhas, pássaros, equinos, bovinos, suínos, são todos serem sem rosto, ou, no máximo, uma idealização nossa do seu parecer, por conta de saudáveis vínculos afetivos que construímos ao longo do tempo. O rosto do cavalo crioulo, inserido na cultura sulina, por volta do Século XII, haurido principalmente a partir da aculturação jesuítica, por conta da perfeita adaptação ambiental dos remotos andaluz e berbere, acabou por fundir-se culturalmente na identidade do gaúcho, que, conforme o senso popular, conhece sua montaria ao longe sem maiores delongas. E assim são os rostos, muitos impregnados na imagem das pessoas, que conhecemos pelo rosto efusivo, inquieto, sequioso, beligerante, sereno, voraz, defensivo, irado, complacente, sedutor, falso ou verdadeiro, em parte ou totalmente.
      O rosto é a primeira leitura que fazemos do próximo. Pressentimos sempre algo que se compraz com a ideia que fazemos do rosto, uma espécie de interpretação prévia, sempre com conceitos também prévios que serão substituídos por outros mais adequados, no dizer de Hans-Georg Gadamer, in “Verdade é Método”, Petrópolis: Vozes, 1999. O fato é que as “aparências engaram sim”; não as aparências de “Como nossos pais”, de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, na clássica interpretação de Elis Regina Carvalho Costa; mas as aparências de sentido e motivação; aquelas que acabam sempre aparecendo com sinais próprios a partir dos rostos de seus dissimulados protagonistas. E o que está no rosto, incluindo todos os acessórios pertinentes (indumentária, gestos, voz, palavras, olhares, chistes, tiques, silêncios, evasivas), soma-se a final ao demais para fazer da alteridade do momento uma descoberta conjunta do eu de cada um. Ao observar-se um ser humano, e seu rosto, se prestarmos atenção, encontraremos sinais característicos da sua essência. Olhar para o outro é muito mais do que agregar uma nova imagem ao nosso rol de figuras gravadas no “HD da memória”: os rostos revelam vidas, seu erros e acertos, muito dos seus saberes íntimos, cabendo a nós, que também temos rostos com essas características, saber encetar, por essa interface da subjetividade humana, a descoberta, não apenas da essência de nosso próximo, mas a nossa própria essência, pois os rostos que vimos e sentimos prosseguem sua existência, e nós, que guardamos aquelas leituras, incorporando-as em nossa construção individual, confirmamos postulados previamente sedimentados, ou mudamos de ideia, ou fingimos desconsiderar, tudo na medida de nossa maior ou menor propensão a levar a vida conforme os ditames da verdadeira alteridade ou não.