26.12.11

NÃO ACREDITA EM PAPAI NOEL

      Conheci um sujeito que não acreditava em Papai Noel. Não era insistente, chato, presunçoso, ou um daqueles cujas opiniões pareciam ser as únicas existentes. Mas ele simplesmente não levava aquela fé comum de todos no “Bom Velhinho”. Não acreditava mesmo. Era sincero. Ele tinha nove filhos e vivia numa cidadezinha do interior, daquelas cheias de castas simbólicas e de ícones locais; baile disso, baile daquilo, com avenidas de nomes ilustres, contendas veladas e sempre com algum fuxico do momento. Mas ele só respondia se fosse perguntado: “não, não acredito”. Também não cria no então famigerado pouso lunar: “Que pisou na Lua coisa nenhuma, seu!” E, ressalvada alguma aparência, tinha uma fé moderada, tanto quanto sem exageros falava e atuava no geral da vida. Não era medíocre. Não lhe faltava capacidade de se colocar no lugar do outro e de ponderar as circunstâncias. Não se furtava a uma solução. Dizia que homem não nega conta, não exagera na bebida, não trai a amizade, não empresta carro e não pega em arma se não for pela vida. Dizia que mulher do próximo é assunto de respeito e que filho é bênção divina. Eis o resumo desse meu conhecido que já passou por este mundo, com quem pude por breves anos conviver.
      Para quem já procurou tantas respostas em compêndios e tratados, em doutrinas complexas, em escritos filosóficos de vários tempos e lugares, dizeres tão simples soam estrondosamente verdadeiros e por si explicativos à exaustão. Acontece é que realmente as verdades são simples. Tanto já se falou “do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas; da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Sampa, Caetano Veloso). Já disseram que “nos barracos da cidade ninguém mais tem ilusão; no poder da autoridade de tomar a decisão” (Nos barracos da cidade, Gilberto Gil). Devem ter xingado bastante João de Almeida Neto, ao que ele respondeu com rara beleza e singular eloquência: “Me chamam de boca braba; esta gente tá enganada; eu tenho é boca de homem; e tenho opinião formada; sei qual é a boca que explora; sei qual é a boca explorada; e é melhor ser boca braba; que não ter boca pra nada” (Razões do Boca Braba). E por toda parte se destacam os exemplos literários e poéticos. Não nos faltam as fontes de consulta. E podemos navegar por horas e horas. E podemos desvencilhar páginas e páginas das escorreitas brochuras. É livre o caminho para a descoberta.
      Mas então me retorna à mente meu velho conhecido descrente no Papai Noel. Aquele homem simplório, de poucas letras, com uma opinião tão desconfortável. Que tanta falta fez aquele sujeito ao seu meio. Por incrível, sua casa era a mais cheia no Natal. Filhos, genros, noras, filhas, sobrinhos, netos, parentes, amigos. O Natal era sempre lá na sua casa, na casa do meu descrente amigo. Eu mesmo presenciei seu gentil sarcasmo, sua dócil picardia sobre a crença no Papai Noel. É que o Natal para ele só existia de fato. Natal para ele era muito mais do que cumprimentos, presentes, Papai Noel, árvore, luzes ou ceia. Eram as pessoas que importavam. E todos se importavam com ele, porque ele dava sentido e rumo a tudo aquilo. Era natural – hoje percebo – que ele dissesse não acreditar no Papai Noel: era ele próprio o “Bom Velhinho”. Era ele que chamava a si responsabilidade pelos bons exemplos de vida que se concentravam festivamente nas comemorações natalinas. Sejamos, pois, cada um de nós um Papai Noel neste Natal.