26.12.11

A CONFIANÇA

      A confiança se constrói. Ela se faz presente nas relações humanas. É um pensado que é não dito, mas que é sabido. Sabido pelos que confiam. Enganam-se os que pretendem estereotipar a confiança num ato unilateral. E são principalmente os atos, passados e presentes, que falam, que inspiram confiança. Confiança é resultado de uma alteridade saudável. Mas como podemos construir a confiança, se somos tão diferentes uns dos outros? Como estabelecer esse liame humano necessário, se temos tantos interesses diversos em jogo em nossas vidas? E se é um jogo essa vida, não é natural que pretendamos sair vencedores? Confiaremos em quem? Seria melhor formulada a pergunta se indagássemos em que podemos confiar.
      A desconfiança, por sua vez, tende a se estabelecer entre nós. É algo como dizer que é mais fácil desconfiar do que confiar. Não deixam se surgir as diplomáticas soluções: “confiar, desconfiando”. Mas estaremos também a prever o pior, o que, em última análise, é desconfiar mesmo. Mas serão as pessoas que são confiáveis ou não? Confiáveis em algumas coisas, não confiáveis em outras. A ocasião tem então a capacidade de qualificar o confiável. O que haveremos de ensinar a nossos filhos? A confiar nas pessoas, situações, palavras? Ou a desconfiar? Corremos o risco de uma formação tendente à ingenuidade, no primeiro caso, tão fustigada em determinados meios ideológicos; pouco saudável também será a cria doutrinada para desconfiar de tudo e de todos, cujos exemplos de infelicidade pessoal são tão visíveis por aí afora.
      Em verdade, confiamos em valores. Não deixamos de submetê-los às críticas da vida, até para contestá-los e formarmos quiçá uma nova guia valorativa, depositária da nossa renovada confiança. Mas são os valores, representados nos dizeres dos outros, em seu atos, em suas decisões, que podem inspirar nossa confiança. Fazemos parte da criação da confiança. Confiança se constrói na alteridade, sempre. É sempre o resultado do encontro de subjetividades, que são carregadas de valores, e que passam ao permanente e crítico crivo da racionalidade. Não a racionalidade do tipo utilitarista, mas aquela voltada para a essência do valor confiável. A gente tende a confiar no que conhece. É por isso que, na relação amorosa, por exemplo, conhecer-se reciprocamente, em suas histórias, suas vivências, seus erros e acertos, faz tão bem a propiciar confiança. Isso vale para a sociedade também. Confiar é também ter previsibilidade, é poder ter a certeza de tais ou quais valores serão respeitados.
      De regra, valem as dicas: não confiar sempre nas aparências; buscar os valores que animam as palavras e os agires; ter sempre presente que aquele que não é confiável hoje pode ser o único digno dessa virtude no futuro ali próximo. E o futuro? O dinheiro, o poder, as disputas da vida tendem a tornar mais superficiais nossas abordagens sobre os valores aptos a animar a confiança. Confiança é um sentimento que renovamos a cada dia, mas não podemos sacrificá-la também por conta dos deslizes do nosso próximo. Como dito, é preciso investigar os valores e deles extrair nossas conclusões. Confiar é conhecer, e conhecer antes tudo os valores, os propósitos, os fins que dão sustentação, ou não, aos saberes confiáveis.