2.11.11

A REVOLUÇÃO DO COMÉRCIO

      “Desde que desceu das árvores, o homem encarou o problema da sobrevivência, não como indivíduo, mas como membro de um grupo social. A continuidade de sua existência é testemunho de que ele conseguiu resolver o problema: mas a continuidade também da carência e da miséria, até mesmo nas mais ricas nações, é evidência de que essa solução foi, no mínimo, parcial” (ROBERT L. HEILBRONER, “A história do pensamento econômico”, Editora Nova Cultural, 6ª edição, 1996). A sentença do pensador norte-americano é taxativa e irrecorrivelmente verdadeira. A natureza gregária do ser humano e seu viés egoísta constituem os fatores de um paradoxo que animou os filósofos de todos os tempos em busca de parâmetros para indicar uma forma de convívio que torne acessíveis os bens da vida a toda a Humanidade. O olhar sobre a história como ponto de partida tem sido indiscutivelmente o caminho mais seguro para se chegar a alguma conclusão. E, ao revolver o caminho percorrido pelos seres humanos, desde que conhecidos como tais, não pode deixar passar ao largo a relação social que mais contribuiu para os avanços históricos que redundaram na sociedade contemporânea: o comércio.
      É possível afirmar que o comércio é tão antigo quanto à existência de sociedades humanas na Terra. Sua função básica inicial afirmou-se como a de facilitar as trocas entre produtores e consumidores. Mas, para além do seu atributo logístico, vale destacar seu conteúdo pacificador e estimulador do desenvolvimento humano em múltiplos sentidos. É através da superação das restrições ao comércio que a história vem sendo escrita. Na antiguidade, foram os comerciantes que, no lombo de animais em viagens pelos desertos, promoveram a aproximação de comunidades, fomentando necessidades, novas aculturações, estimulando atividades econômicas. Ultrapassando os valores da tradição e das hegemonias políticas baseadas na força, os comerciantes seguiram seu propósito transversal a todos os ditames conservadores, para desembocar na era moderna. A história da Humanidade, pelo menos desde a Idade Média até os tempos de hoje, não se descola da história do desenvolvimento e emancipação da atividade mercantil.
      O comércio é avesso às guerras, embora guerras tenham sido travadas por conta de motivações comerciais. É no ato de comércio que repousa toda a construção social de interação do homem com a produção dos bens necessários à sua sobrevivência. As necessidades humanas são tão vastas quanto são as possibilidades do comércio. Fala-se com ênfase nos aspectos perniciosos da sociedade do hiper-consumo, mas nenhuma análise retira do comércio sua importância fundamental e sua essência agregadora e estimuladora do desenvolvimento humano. O mau uso do comércio não pode a ele ser tributado em essência, pois se trata de afirmar que no passado e no presente a questão da satisfação das necessidades do homem passa invariavelmente pela atividade mercantil. O comércio celebra a circulação dos valores culturais. Isso porque tem a aptidão ontológica de agregar ao seu mecanismo de ação toda a espécie de bens, materiais ou imateriais, que possam ser transferidos pelo ato de comércio.
      A questão de se estabelecer limites ou formas para a atividade comercial é desafio que remonta desde as reflexões da PLATÃO, no clássico “A república”, e é ainda desafio presente para as sociedades modernas. Como preservar a essência benéfica do comércio, sem deixar que a atividade mercantil, especialmente na era da dita globalização econômica, sirva de fundamento para as mais desagregadoras, paradoxalmente, construções de funcionamento econômico? Sem dúvida, o desafio é gigantesco, mas será a partir de seu enfrentamento que poderemos encontrar as soluções para um mundo melhor para todos. E não será olvidando a importância histórica e presente do comércio que chegaremos a alguma conclusão.