29.11.11

INSUMOS E EXTERNALIDADES

      Da economia, sem que seja pacífica a conceituação, entendem-se os insumos como bens ou serviços utilizados na produção de outros bens ou serviços, tais como matérias-primas, maquinaria, capital, mão-de-obra. Externalidades seriam os resultados externos das atividades de produção e consumo de bens e serviços, aqui focadas em sua qualidade negativa, como geradoras de um custo social significativo, notadamente sob o aspecto ambiental. E é da compreensão de tais elementos como integrantes do processo de interação do Homem com seu próximo e com a natureza que se pode extrair alguma reflexão sobre as possibilidades presentes e futuras de manutenção e qualificação positiva da vida humana.
      Sob o viés dos insumos, sem necessidade de muito esforço no pensar, impacta a conclusão de que nossa sobrevivência se dá fundamentalmente em bases extrativistas e de interação direta com a natureza. Vejam-se nossos bens de consumo, uns mais, outros menos duráveis, produzidos à base de ferro, aço, plástico, vidro, celulose, concebidos a partir da extração de minérios, petróleo, sílica, árvores, sempre utilizando água nos processos produtivos, em maior ou menor quantidade, recurso natural também esgotável como os demais. Da agricultura fruímos de bens de consumo produzidos normalmente em escala maior, grandes processos de interação direta com a natureza. Nesse quadro não é difícil concluir pela nossa grave dependência dos recursos naturais, seja como mananciais de extração de matérias-primas, seja como espaços terrenos de forte intervenção do Homem para a obtenção de resultados produtivos.
      Pelo lado das externalidades, é inquestionável que as nossas atividades, a começar pela produção dos bens necessários à vida humana, são fontes simultâneas de produção também intensa de externalidades. Aqui situam-se todos os tipos de resíduos das atividades industriais, sejam as primárias ou de qualidade mais complexa, metal-mecânica, agroindústria, petroquímica, mobiliária, construção civil e tantas outras tão caras ao nosso modo de vida. A par de sua qualidade de insumo dos processos produtivos e de sua essencialidade como bem de consumo vital para o Homem, as águas em geral se destacam também como destinatárias das externalidades negativas dos processos produtivos. Se migrarmos nossa reflexão para as atividades de consumo de bens necessários à nossa existência, definitivamente impactante será a conclusão de que as externalidades constituem uma realidade palpável, a alguns centímetros da cestinha de lixo do escritório, da cozinha, do banheiro. 
     Não é difícil observar então que o ser humano é o grande criador de uma realidade artificial, produto de sua capacidade de alterar a feição da natureza para a ultimação de seus propósitos vitais. O problema fundamental da questão ecológica é pois a forma, a intensidade, a extensão enfim, da interação do Homem com a natureza, seja ela compreendida como fonte ou base dos processos produtivos, seja ela compreendida como depositária das externalidades de tais processos e do consumo humano. Nesse quadro, será possível imaginar a perenidade da existência humana, considerando a limitação dos recursos naturais e o avolumar incessante de externalidades negativas no meio ambiente? Se é na base de produtos artificiais essencialmente que se dá a vida humana, não seria o caso de rever nosso modo de vida, tão dependente de novos recursos naturais, que são todos finitos e sensíveis às externalidades geradas em nossos modos de produção e consumo?
      Para além da técnica e da ciência, da economia e da política, definem-se os contornos de uma indagação que é filosófica antes de tudo: não estaria a longevidade dos seres humanos na Terra condicionada a um sistema que reduzisse cada vez mais a intervenção do Homem na natureza, aproveitando cada vez mais as mesmas externalidades dos processos produtivos e de consumo agora como insumos dos processos vitais, a garantir a perenidade da natureza e de seus recursos, fazendo eco ao modo de ser ontologicamente artificial do ser humano?