2.11.11

FIM DOS TEMPOS

      Não faltam argumentos de diversos setores de formação de opinião sobre a impertinência ou não completude das análises e conclusões acerca do caráter alienante e mecanicista da sociedade atual. Combatidos, muitas vezes, de forma dura e incisiva, acabam em grande parte tachados com estereótipos maniqueístas, no mais das vezes classificados como precursores de determinadas ideologias políticas, às quais os críticos, muitos incofessadamente, combatem a todo custo, porque também representam ideologias políticas. Do lado dos “críticos dos sistema”, dizem os mais ortodoxos que o capitalismo, como superestrutura ideológica guarda natureza invariavelmente alienante e tendente à fragmentação da sociedade. É famosa a expressão “guerra de todos contra todos”. Mas precisamos separar os críticos idiossincráticos e os críticos dos críticos idiossincráticos para que se possam delinear algumas ideias pertinentes à realidade. A grande verdade é que todos concordam numa aspecto fundamental: a “guerra de todos contra todos” cria uma sensação de desconforto social, e as críticas que atribuem uma das causas do fenômeno ao modo pelo qual se constituem as relações econômicas é reconhecida por todos, seja em discursos pró, seja em discursos contra.
      Todavia, é importante lembrar que os ideólogos socialistas e utópicos, com variantes aqui e ali, já concluíram também que não se trata de uma questão acabada a análise crítica do capitalismo. E não pode ser mesmo, pois se trata apenas – nesse estágio das relações de mercado – de mais uma etapa de descobrimentos de funcionamentos, engendrados muitos deles – ou todos elas – no próprio sistema que se movimenta naturalmente para favorecer, a par da alienação, do utilitarismo, do fetichismo da mercadoria e da coisificação do ser humano, consciências de classe e de compreensão da realidade do sistema pelas massas, bem como da posição nele de cada indivíduo ou de cada grupo, contestando-se até, em alguns setores mais atentos, o pressuposto da “verdade única”, decorrente da visão curta, segundo a qual estaríamos no ponto máximo de desenvolvimento das relações sociais e econômicas. E, de fato, não é verdade. Estamos apenas começando.
      Veja-se o funcionamento do mercado, por exemplo. A partir da Segunda Guerra Mundial, houve um acentuado desenvolvimento da atividade produtiva, notadamente na indústria. Os reflexos das externalidades negativas decorrentes – não apenas ecológicas, mas sociais e políticas – foram sentidos pelos agentes econômicos da produção, para quem o regime de liberdade – como razão estruturante dos sistema – é de fato imprescindível. Veja-se a evolução da moda, quando se observa que o mercado busca se adequar ao crescimento vertiginoso da chamada classe média. Dos produtos suntuosos, consagrados ao consumo por parte de restritas camadas econômicas, chegamos a uma produção que prima por destacar as qualidades do luxo e da sofisticação, mas que sejam baratas, funcionais e duráveis, nos produtos destinados à grande massa de consumidores, isto é, as classes que não chegam a ser abastadas, mas que detém razoável poder de compra. A celebração da “compra consciente” é estratégia de “marketing” inafastável. Veja-se, por exemplo, o automóvel compacto – menos caro – que é vendido sob o discurso de que incorpora componentes modernos e similares aos modelos luxuosos. O “design”, inserido definitivamente no processo industrial, cuida de garantir uma produção que corresponda a valores do chamado “consumidor consciente”. O “ethos” do produto é parte da linha de produção. Tal produto é bom, porque além de ser econômico, representa “um cuidado com o meio ambiente”, é “produzido com tecnologia nacional”, cumpre a indústria com sua “função social”, e por aí vão as inúmeras justificativas, cada vez mais condizentes com valores – muitos hauridos no próprio mercado, tornado mais consciente e mais crítico a cada dia. 
     A verdade é que estamos modificando nossa relação com as coisas produzidas e dispostas ao consumo de massa, havendo uma corrida desenfreada dos setores produtivos para corresponderem a esse novo tipo de demanda, mais criteriosa, mais desconfiada, mais atenta, mais informada. Como dito, não se trata de um “estágio final”. É um processo que está apenas começando.