10.10.11

O CAÇADOR E O SONHADOR

     Pior do que não ter ideais é ser um sonhador desiludido. É não ver perspectiva num sonho que se elaborou ao longo de uma vida às vezes. Alguém que já sonhou. Sonhou certo, sonhou errado. Agiu errado, agiu certo. Tudo em nome do sonho, da esperança, da aposta no devir, da aposta na alteridade verdadeira, que compartilhe o sonho, que construa junto novos sonhos. 
    Age errado o sonhador, muitas vezes contra o seu propósito verdadeiro até, sem querer até, porque o sonhador compartilha o sonho. 
   Desilusão não é apenas um diagnóstico de um tempo passado de sofrimento: é uma insípida visão de que o futuro, como pensa o não sonhador, não passa de um dia depois do outro. 
    Como fazer projetos para o futuro, se a desilusão sempre teima em se manifestar, de um jeito ou de outro? Sonhar é partir de uma realidade, que pode ser dura, difícil, caótica, mas que é ao mesmo tempo envolvida por uma esperança contagiante. A esperança do sonhador. Descobrir num belo dia que toda nossa energia, toda nossa esperança, foi resumida em um indiferente e cético “não”, em uma exclusão normalizada pelo mundo da hipocrisia dos não sonhadores, uma mentira, tudo isso é motivo para não querer guardar mais ilusões. 
     E as ilusões não são guardadas nos nossos cofres; as ilusões nossas ficam em cofres alheios sempre. É da natureza da esperança acomodar-se na alteridade do sonhador. Por isso o cofre alheio precisa ser envolvente, cúmplice, sincero, verdadeiro, contagiante, uma espécie de garantia que apoia e reserva um lugar especial para o nosso sonho. Sim, nosso. Porque o sonho do sonhador nunca é só dele. Só existe como sonho na medida de seu compartilhamento. Algo diferente disso não é sonho. É outra coisa, que o sonhador desconhece, até o dia em que descobre que seu sonho não estava bem guarnecido, não passava de uma fonte de consulta, um dicionário, um calço, um instrumento, uma alavanca. 
     Não são todas as pessoas que são sonhadoras. As que não são, no geral, se apoiam nos sonhos daqueles que são, constroem até suas vidas a partir daqueles sonhos que não são seus, que não compartilharam com o sonhador que os depositou e compartilhou. E o sonhador fica ali, de lado, longe dos segredos de felicidade dos aproveitadores dos sonhos. O sonhador depositou sua lealdade, sua confiança, seu sonho, no ser alheio. A felicidade verdadeira do sonhador só acontece junto, na relação, na alteridade, porque o sonho só é sonho, quando é compartilhado. Sonhadores motivam, estimulam, sem hipocrisias, sem mentiras. Sorte para os que não são sonhadores poderem viver um tempo com eles, embora os não sonhadores tenham sempre um motivo secreto para os seus atos, seus afetos, seus compartilhamentos. 
   A felicidade dos sonhadores é uma superfície, cuja profundidade nunca é revelada. Aquele que não sonha de verdade somente se inspira no sonho de verdade do sonhador. E o pior. Às vezes ainda o faz como se a inspiração ou o sonho fossem seus. 
     O sonhador é um agricultor do mundo. Prepara o terreno, semeia, planta e fica ali, sonhando. Os passantes, não sonhadores, sabendo que os sonhadores gostam de compartilhar seus sonhos, ficam por ali também um pouco, fingindo até sonharem juntos, mas não perdem a oportunidade de observar o ambiente, para, quando for oportuno, retomarem sua caçada. Sim. O não sonhador não é um agricultor do mundo; ele é um caçador do mundo. Sempre será. Não se acomoda. Envolve-se somente o necessário para recarregar suas energias, apropriar-se de alguns métodos e até de alguns sonhos mais breves, mas sua verdadeira felicidade, seu prazer, é caçar. Caçar e caçar de novo. Sempre. O não sonhador não sonha, porque ele nunca tem certeza de que irá concretizar seu sonho. E ele não suporta essa dúvida. Sempre pode acontecer de a caçada não “dar em nada”. 
    Não é como o agricultor que sabe que vai colher o que plantou. Menos a parte do não sonhador, é claro, que não costuma devolver os sonhos roubados. 
  Agricultores, sonhadores, caçadores, não sonhadores, sobreviventes de um mundo de predadores. Cada um por seus motivos e à sua maneira. E o sonho do predador se limita apenas à nova caçada que haverá de empreender. Só. Eis o vazio do caçador e a frustração do sonhador.