20.10.11

A MÍDIA E OS VALORES MORAIS

      A mídia é também definidora, construtora e catalisadora de valores/comportamentos morais e, portanto, de normas morais. A sociedade, influenciada pela mídia, vai modificando a qualidade dos espaços públicos de realização da moral, havendo uma tendência de que tais espaços tenham, no mínimo, um funcionamento também midiático, além da inserção de métodos e critérios condicionantes para o acesso a tais espaços, conforme as pretensões de subjetividade hegemônica que a mídia representa. Exemplo de discurso midiático: “pô, afinal, eu tenho que vender o meu produto, né!”, ou “pelo menos eu fiz meu comercial”, e tantas outras pérolas, todas expressando um resultado econômico, direta e ostensivamente, ou fixando um tal valor naquela situação como uma possibilidade moralmente adequada e única possível.
      O que ocorre é que tal situação, que é fruto de uma “liberdade/oportunidade” de utilizar espaço midiático dessa forma e para tal finalidade, tem o efeito também de corroer a finalidade ou propósito anterior daquele espaço midiático em que se dá dita situação. Se o programa é sobre cultura, amor, fé, política, etc, passa a integrar, de alguma forma, o conteúdo valorativo possível daquele programa aquele viés exclusivamente voltado para uma finalidade econômica. Funcionando dessa forma, a mídia dessubstancia as instâncias e os mecanismos de formulação da moral, enfraquecendo os espaços públicos, que são o palco essencial para o funcionamento moral do Homem e para o desenvolvimento das aptidões humanas: primeiramente, porque retira as pessoas de tais espaços reais; depois, porque afasta as pessoas umas das outras no mundo concreto; e, finalmente, porque incute rotinas e critérios pré-determinados que impedem a plena utilização para fins eminentemente humanos dos espaços públicos. Dizer que existe apenas uma fragmentação do espaço público em decorrência da mídia é uma verdade parcial, pois a mídia fragmenta, mas também dessubstancia os espaços públicos.
       É preciso promover uma “desmercadização” da mídia, para atingir a uma “desmercadização” dos valores morais e dos espaços públicos, pois a mídia se torna, a cada dia, o espaço público mais quantitativa e qualitativamente importante. A sociedade pode até ser “midiática”, em razão do desenvolvimento tecnológico alcançado; mas não se pode esvaziar/dessubstanciar/desqualificar as relações humanas concretas e nem se criar e estimular uma “sociedade midiática artificial”, isto é, uma sociedade em que a mídia não segue os propósitos humanos decorrentes de seu funcionamento moral necessário, o que somente pode ocorrer nas relações concretas entre as pessoas. Os debates importantes a serem travados, nos espaços reais para tanto, inclusive nas esferas participação da sociedade no âmbito do Estado, são de extrema importância para a consolidação da democracia.
  É necessário frear qualquer tendência à fragmentação/dessubstanciação unilateralmente orientada dos valores morais e dos espaços públicos concretos, pois é o que sempre acaba ocorrendo quando a mídia está a serviço de uma “pretensão de subjetividade hegemônica”, funcionando como um mecanismo de criação artificial de valores. É preciso divulgar e valorizar os espaços públicos reais, inclusive através da mídia, para que a sociedade – especialmente os jovens – não desacreditem na possibilidade de construção efetiva de novos valores, para além das comezinhas “verdades únicas” normalmente divulgadas direta ou indiretamente pelos veículos de comunicação de massa, em sua grande maioria.
      Vale lembrar que a base desse funcionamento da mídia em geral, está no fato de que, muitas vezes, os veículos midiáticos pertencem a grupos políticos e ou econômicos, que são comprometidos com os interesses/valores/ideologias, que precisam dessa “mercadização”, para servirem a seus propósitos. Numa “sociedade midiática artificial”, a tendência é que os “encontros humanos” sejam cada vez mais escassos, isto é, com menos espontaneidade, menos autenticidade e menos liberdade, homogeneizando os espaços concretos, na base de valores únicos e rígidos, desconstituindo suas aptidões para propiciar livre aproximação e interação entre as pessoas. Está na hora, enfim, de rever os conceitos sobre comunicação de massa no Brasil.