30.9.11

GLOBALIZAÇÃO SEM "GLOBARITARISMO"

      O termo globalização normalmente nos é apresentado como uma realidade certa, incontornável, imutável em seus efeitos. Todas as possibilidades decorrentes do fenômeno são apresentadas como passíveis de incrementar o acesso às tecnologias, o acesso à informação em tempo real, à possibilidade, enfim, de realizarmos essa espécie de “ideal logístico” para alcançar o desenvolvimento e o progresso. Mas existem faces não tão disseminadas, e não menos reais, da globalização, que também podem ser lembradas: a “financeirização” do Mundo, e, por conseguinte, da nova ética que se forma em torno disso, resultando, bem assim, numa visão de que a competitividade a qualquer preço se justifica pela realidade imposta.
      A questão é complexa. A competitividade nunca foi tão acirrada entre os atores hegemônicos da globalização. Esses atores hegemônicos são as firmas multinacionais e as entidades “homogeneizadas” por elas, como é o caso de grande parte das grandes empresas de mídia, bem como boa parte dos Estados soberanos. Todos levados pela mesma lógica mundial: a tirania do dinheiro e a tirania da informação. As consequências para a formação do novo “ethos” referido são visíveis. Nas escolas, nas universidades, nos locais de trabalho, nas relações sociais, nas movimentações da política interna e externa. Para o entendedor mais ingênuo, globalização pode significar apenas maior acesso à informação, à tecnologia, ao desenvolvimento de estratégias de vida pessoal, de mercado, de relação, para a formação de novos métodos e sistemas de interação com o mundo. Não faltam descrições dos tempos atuais como “pós-modernidade” ou “modernidade líquida”, e tantas outras, sempre a indicar um estágio da sociedade em que só nos resta “ir para a frente”, sem possibilidade de recuos, diante dos novos métodos e valores tidos como imutáveis.
      Mas será que todos têm acesso aos benefícios da globalização? Será que a Humanidade está, de fato, beneficiando-se integralmente do fenômeno? Por que, num mundo em que produzimos o dobro dos alimentos de que necessitamos, a fome ainda atinge quase um bilhão de pessoas no Mundo, e a cifra não cessa sua escala ascendente? Por que cerca de cerca de 2 bilhões de pessoas ainda carecem de água potável no Planeta? Por que as catástrofes ditas “naturais”, muitas provavelmente decorrentes das desenfreadas técnicas invasivas de exploração dos espaços geográficos e dos recursos naturais pela indústria, apresentam-se cada vez em maior número, e nos lugares menos esperados? Como já dito aqui, não se trata de recuar no acesso aos benefícios do progresso da ciência e das relações de mercado. Mas é preciso refletir sobre o problema, movimentando a sociedade civil, para que, nos Estados ainda soberanos, como o Brasil, tais movimentos repercutam nas instâncias de governo, promovendo uma ação pensada, seletiva, criteriosa, a bem do interesse público, na formulação das políticas governamentais e nas ações de interação com esse tal Mundo Globalizado.
      Apesar de algumas críticas, a recente medida governamental de aumento de 30 pontos percentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados de carros importados ao Brasil de fora do Mercosul, exigindo-se das montadoras, para exclusão do agravo tributário, investimento local em tecnologia, utilização de, no mínimo, 65% de componentes feitos no Mercosul, cumprimento de, ao menos, 6 de 11 etapas de produção no Brasil, entre outras condições, apresenta-se como ação soberana de contra-hegemonia aos ditames dos interesses estrangeiros, merecendo tal reconhecimento pela ação afirmativa de defesa do mercado nacional, do trabalho no Brasil e da indústria local. Não se trata, pois, de “remar contra a maré” da globalização; mas de, por afirmação da soberania nacional, concorrer para impedir que a tão festejada globalização acabe por se tornar não mais do que um simples “globalitarismo”.