30.8.11

SORRIR PARA A ADVERSIDADE

     O título indica uma fórmula que de mágica nada tem. Difícil sorrir para os problemas da vida. O sorriso “amarelo”, aquele que denuncia a tentativa do vivente de não demonstrar o sofrimento por que passa, não é suficiente. É um começo, mas não é tudo. Uma das tantas maneiras possíveis de passar pelas “pedras do caminho”, sem abandonar o caminho, é, realmente, fazer sorrir o coração, o interior, o espírito, animado pela fé em Deus, pela crença na vida, pelo apoio das mãos amigas que se estendem.
      Dizer que amanhã é outro dia, que as coisas não estão tão ruins assim, que existem pessoas que vivem situações piores, nada disso retira por completo a sensação própria daquele que é protagonista da adversidade. E é mesmo verdadeira essa crua constatação. Todas as dores são importantes, porque todas as dores são sentidas por alguém que as sofre. Cada um sente as suas dores, inclusive as que decorrem das dores do próximo. “A minha dor sou eu que sinto” respondem muitos quando das tentativas de consolo.
      Todavia, as decisões sobre o devir incumbem também àqueles que estão a sofrer as dores da adversidade. Assim como não há dinheiro que não possa acabar, também não há dinheiro que não se possa ganhar. Ninguém passa por este mundo sem sofrer alguma dor, e não há dor que não acabe. A adversidade faz parte do viver de todos. A vida é um processo de alegrias, adversidades, faltas, incompletudes, ajustes, recomeços. O final somente virá com a morte, que, em última análise, é da conta de Deus, e não da nossa. Mas nós decidimos muito, quase tudo, sobre a vida. Sobre a nossa vida e sobre a vida dos outros. Sorrir para para ela, portanto, é uma atitude de coragem, de enfrentamento, de exemplo.
      Falar sobre isso nos remete a um exemplo muito próximo. Alguém que trouxe consigo não muito mais do que uma tremenda capacidade de sorrir para as adversidades da vida. Jairo Cardoso Soares, Juiz de Direito, que se despediu nesta semana da jurisdição na Comarca de Três de Maio.
      Negro de pele e de raça, de coração e de alma, de família modesta, começou a estudar numa escola pública no longínquo ano de 1966, em Santana do Livramento. Filho de músico, logo demonstrou seu talento, aprendendo acordeon, piano, teclado, violão, cavaquinho, percussão e canto. Concluindo o então “segundo grau” em 1978, entrou para a universidade e graduou-se em ciências jurídicas e sociais em 1983, exercendo a Advocacia até 1988. Aprovado em concurso público de provas e de títulos, passou a integrar a Magistratura do Estado do Rio Grande do Sul até os dias atuais.
      O Doutor Jairo Cardoso Soares exerceu jurisdição na Vara Especializada Criminal da Comarca de Ijuí, na Vara Judicial, Eleitoral e Direção do Foro da Comarca de Santa Vitória do Palmar, sendo promovido por merecimento para a Comarca de Santa Maria, onde exerceu a jurisdição na 3ª Vara Criminal e de Execuções Criminais, na 4ª Vara Cível, na 41ª Zona Eleitoral, no Juizado Especial Cível e na Direção do Foro. Além disso exerceu jurisdição nas Comarcas de Santa Bárbara do Sul, Rio Grande, Santiago, São Pedro do Sul, Faxinal do Soturno, Restinga Seca, Agudo, Tupanciretã, Crissiumal e Três de Maio. Foi integrante, com louvor do Conselho da Magistratura do RS, da Câmara Recursal Regional do então Juizado Especial de Pequenas Causas na Comarca de Santa Maria. Foi professor de organização judiciária, de direito penal e de direito civil na URCAMP.
      Trata-se de um exemplo de pessoa capaz de sorrir para a vida na adversidade. Um exemplo que confirma uma verdade do senso comum, que dita que não há nada melhor do que um dia depois do outro para se ter uma ideia verdadeira da realidade. Aliás, um ditado importante diz que “na prosperidade, nossos amigos nos conhecem; na adversidade, nós conhecemos nossos amigos” (John Churton Collins). E Três de Maio por certo aprendeu a conhecer esse digno e respeitável magistrado.
      Assim, além do cumprimento afetuoso ao Doutor Jairo Cardoso Soares que se despediu da Comarca de Três de Maio recentemente, calha lembrar os dizeres de Niccolò Tommaseo, para quem “o homem que a dor não educou será sempre uma criança”, e de Charles Caleb Colton, para quem “a adversidade é um trampolim para a maturidade”.
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