30.8.11

A ESCOLA E A "CESTA DE VALORES"

      Costuma-se argumentar, e muito também para efeito didático, que as crianças e adolescentes trazem - ou devem trazer - para a escola uma “cesta de valores”. É o corolário do não completamente equívoco dizer do senso comum: “educação vem de casa...”. A incompletude da ideia não invalida sua pertinência, guardadas as proporções, levando em conta realidades presentes que não eram tão presentes, estruturantes e decisivas, ao tempo da modernidade do final do Século XX do milênio que passou.
      “Educação começa em casa, traz-se de casa, aprende-se em casa” são expressões verdadeiras todas, destacando a função primordial da família na sedimentação e configuração dos valores básicos que irão constituir a estrutura moral e psíquica das crianças e adolescentes. É verdade. O ser humano caracteriza-se por seu funcionamento moral. Sua existência é a constante formação de sua “individualidade”, sobrepondo-se, por sua capacidade de autodeterminação, aos instintos e hábitos, aptidão que o diferencia das demais espécies. Mesmo com as descobertas sobre o papel da ideologia e do inconsciente na subjetividade humana, não se nega que consciência e vontade se constituem permanentemente, sendo a família um ponto de partida indiscutível.
      Mas o fato é que as condições, imposições ou limitações do chamado “mundo globalizado” estão cada vez mais claras, mesmo aos observadores mais superficiais: a família enquanto instituição da sociedade humana experimenta uma aceleração exponencial em sua constante e natural mutação. Não se trata apenas de se observarem novas configurações. É a velocidade das modificações, dos novos arranjos, concepções e hábitos que se sucedem, que chama a atenção. Nesse quadro, não é mais tão simples, se é que algum dia foi, ditar a fórmula da sociedade saudável a partir da saúde de sua “unidade estruturante”. A “cesta de valores” está vindo cada vez menos cheia, plástica e paradoxalmente reciclável, isso quando não pior: quando qualquer vento descola sua alça ou quando basta desligar da tomada que se esvai seu aparente colorido.
      Num mundo assim, a formação de pessoas de consistência moral suficiente é tarefa de que não se desincumbe sozinha a instituição família. Nesse ambiente de espaços públicos tão “privatizados”, em que as próprias relações familiares muitas vezes se tornam pautadas pelos discursos e regras da propaganda e da economia, desponta a escola como instituição social estruturante, que deixa de ter um papel apenas complementar na formação de nossas crianças e adolescentes.
      A complexidade das relações humanas destes tempos é um dado real. Irreversível. Independentemente de causas ou efeitos, é certo que o sucesso de quaisquer empreitadas individuais ou coletivas está cada vez mais na razão direta do grau de eticidade na formação das pessoas. Mais do que “desenvolvimento sustentável” urgem comportamentos e hábitos sustentáveis. Se a família é uma das estruturas dessa humanidade possível, não menos fundante e essencial é a instituição escola, ambiente propício para a formação de uma sociedade saudável, ainda que venham pouco cheias ou desorganizadas as “cestas de valores”. Haveremos de aprender: a escola é o espaço público fundamental do novo milênio.