28.6.11

A MODA HOJE

     A sociedade de consumo pode ser definida a partir de vários critérios: abundância de mercadorias, culto dos objetos, hedonismo, materialismo, uma infinidade de adjetivos sem dúvida. Mas é a moda, fundada na frivolidade, na sedução, na fantasia estética, que está a indicar o funcionamento peculiar da sociedade de consumo.      
     Tangente aos ideários, sejam os mais ou os menos burocráticos e estáticos, a moda é também transversal às ideologias, contribuindo por vezes para rearticulações conceituais, sempre no propósito – é claro – de expansão das necessidades humanas. 
    Dispositivo social que se caracteriza por uma temporalidade breve, longe do determinismo ditado pela ancestralidade e pelos costumes arraigados das épocas antigas, a moda, tal como se apresenta hoje, é bem diferente. 
     Na antiguidade, os padrões de vestuário, por exemplo, guardadas as proporções derivadas dos estamentos sociais, eram ditados pelo costume herdado, nada que pudesse desqualificar o passado, este sempre objeto de um culto que servia de amálgama para a organização das sociedades. A moda somente se estrutura como tal a partir do momento em que as sociedades começam a abandonar os fundamentos da submissão ao passado coletivo. Até então, estamos no final do período que convencionamos chamar de Idade Média.       
     Mas ainda não era o momento da moda tal como hoje é percebida. Antes mesmo do surgimento da chamada Alta Costura, no final do século XIX, surge e cresce vertiginosamente a confecção industrial. Embora sempre tenha a Alta Costura ditado moda no vestuário, a produção em escala de indústria, cada vez mais tecnológica, rápida, volumosa e qualificada, acaba por ultrapassar o tempo dos griffés, para atender a uma demanda crescente, uma tremenda e insuperável pressão de consumo, que vem facilitada pelos meios de comunicação de massa, especialmente a partir dos anos 60 do século XX. Por muito tempo a Alta Costura monopoliza o bom gosto, a inovação, a tendência, nela inspirando-se a indústria, para (re)produzir algo da moda, sempre em larga e crescente escala.    
     A moda hoje é um processo. Um movimento da subjetividade coletiva que se funda no gosto pela mudança, pela sedução, numa superficialidade lúdica generalizada. É o contagiante prazer pela novidade. Uma renúncia constante ao passado em favor de uma espécie de devir presente, sempre estimulado a modificar-se, sempre aberto ao novo, sempre em movimento. A moda hoje traduz também a autonomia do sujeito no mundo das aparências. É a celebração do individual como signo da liberdade, na concepção do homo frivolus, com destaque para a psicologização do parecer.
     Da priorização de um sistema prêt-à-porter, descartável, fixado em padrões gerais estanques, nos primeiros tempos dessa nova era, a moda passa a ser menos um apanágio de honorabilidade ou de representação social, para prevalecer a sedução, o destaque para o indivíduo, o próprio, invadindo todos os setores do comportamento em que o parecer seja mais do que oportuno, sempre focada nos valores hedonistas de massa, nos valores inconformistas – geralmente originários da juventude – e na valorização do feminino, este como signo indicativo de emancipação de gênero, em todos os setores da vida social. 
     A essa altura, pinceladas ideias sobre a moda na atual sociedade de consumo de massa, é possível concluir que a compreensão dos movimentos sociais e econômicos – e até dos políticos – passa pela abordagem do tema “moda”, aqui focada no vestuário, como histórico e peculiar ambiente em que se processa, sendo possível e oportuno expandir tais reflexões para outras áreas do consumo, tudo para que se possa compreender o fenômeno, fazendo desse conhecimento reflexivo, quem sabe, instrumento para a compreensão de tantos outros aspectos da complexa sociedade dita global que se augura neste início de segundo milênio.